Tese central

A Revolução Francesa não deve ser lida apenas como a queda de uma monarquia, a substituição de um regime político ou uma transformação institucional ocorrida no final do século XVIII. Reduzi-la aos acontecimentos iniciados em 1789, circunscrevendo-a à França e à sucessão de episódios que conduziram da crise do Antigo Regime à República, ao Terror e às posteriores recomposições do poder, é confundir a manifestação histórica com o processo mais profundo que a tornou possível.

A Revolução não nasceu pronta, nem surgiu espontaneamente das ruas de Paris. Foi precedida por uma longa cascata de acontecimentos, doutrinas, conflitos, interesses, ressentimentos, redes de sociabilidade e operações de poder que, ao longo de gerações, prepararam a dissolução da antiga ordem. Nessa corrente histórica encontram-se pessoas concretas, grupos organizados, círculos intelectuais, sociedades de influência, interesses econômicos e financeiros e alianças cuja atuação não pode ser ignorada sem empobrecer gravemente a compreensão do fenômeno. Os artigos que derivam deste, sustentarão, inclusive, que a dimensão financeira da Revolução não constitui um elemento periférico ou acidental, mas uma de suas chaves de interpretação — questão que deverá ser examinada à luz de agentes, vínculos, interesses e mecanismos concretos, e não reduzida a explicações vagas ou meramente conspiratórias.

Mais profundamente, porém, a Revolução estabeleceu novos ditames: novos princípios destinados a reger a organização da sociedade, a origem e os limites da autoridade, a relação entre religião e poder político, a estrutura da família, a finalidade da educação e, finalmente, a própria consciência humana. E, ao falarmos aqui de religião, não nos referimos a uma abstração genérica, mas sobretudo ao cristianismo histórico em suas grandes configurações europeias — de modo eminente à Igreja Católica e, em outro plano e sob relações próprias, aos diferentes ramos surgidos da Reforma Protestante.

A tese central deste artigo é que a Revolução pretendeu substituir uma ordem recebida — fundada na anterioridade de Deus, na objetividade da lei natural, na força normativa da tradição, na realidade dos corpos sociais e na legitimidade de autoridades historicamente constituídas — por uma ordem reconstruída segundo novos princípios de legitimidade. Nessa nova ordem, a vontade humana, a soberania política, a autonomia do indivíduo e concepções abstratas de liberdade e igualdade passam progressivamente a ocupar o lugar antes reservado a uma realidade superior ao próprio homem.

Por isso, a Revolução Francesa não deve ser compreendida somente como um evento. Ela é também a manifestação histórica de uma mutação intelectual, moral, religiosa, política e social de longa duração. Sua importância não está apenas no mundo que derrubou, mas sobretudo nos princípios que tornou normativos; não apenas nas instituições que destruiu, mas nas novas obrigações mentais que impôs; não apenas no sangue que derramou, mas na gramática política e moral que legou à modernidade.

O problema central deste artigo será, portanto, identificar esses ditames, investigar sua genealogia e mostrar como eles procuraram substituir uma ordem recebida por uma ordem fabricada: não mais o homem reconhecendo uma verdade anterior a si, mas o homem reivindicando para si o poder de definir a ordem, a autoridade, a liberdade, a igualdade e, por fim, a própria medida do humano.