A Revolução Francesa terminou historicamente?

Sim — desde que se compreenda com precisão o sentido dessa afirmação.

Terminou enquanto sucessão concreta de acontecimentos. As assembleias revolucionárias desapareceram; os clubes foram fechados; os jacobinos deixaram o poder; Robespierre caiu; o Terror chegou ao fim; o Diretório foi derrubado. O golpe de 18 Brumário abriu o caminho para o Consulado e para a posterior ascensão de Napoleão Bonaparte. Os homens passaram, os regimes sucederam-se, e as instituições revolucionárias foram transformadas, absorvidas, reorganizadas ou destruídas.

Nesse sentido, pode-se falar legitimamente em um fim histórico da Revolução. Mas é precisamente aí que começa o verdadeiro problema: uma revolução pode terminar como acontecimento sem terminar como princípio; pode cessar enquanto insurreição e continuar enquanto doutrina, desaparecer das ruas e permanecer nas leis, perder seus clubes e conservar sua linguagem, executar seus próprios dirigentes e sobreviver aos seus executores, abandonar a guilhotina sem, contudo, abandonar os critérios de legitimidade que introduziu.

A própria história do encerramento revolucionário contém uma espécie de confissão dessa permanência. Quando, depois do golpe de 18 Brumário, o novo poder consular procurou declarar concluída a Revolução, não anunciou simplesmente um retorno à ordem anterior. Ao contrário: proclamou que a Revolução estava fixada nos princípios que a haviam iniciado e, precisamente nesse sentido, podia ser declarada terminada.

A fórmula encerra um paradoxo apenas aparente: a Revolução poderia terminar justamente porque parte essencial de sua obra já não dependia da permanência do movimento revolucionário. Não era necessário conservar indefinidamente as multidões nas ruas, manter abertas as seções revolucionárias, perpetuar o Terror ou conservar a França em estado permanente de insurreição; uma vez incorporados seus princípios às instituições, às leis e à nova ordem política, a própria agitação revolucionária podia cessar sem que cessasse a Revolução em seus efeitos mais profundos.

Se os novos princípios de legitimidade fossem incorporados às instituições, às leis, à educação, à linguagem política e à consciência das gerações seguintes, então a Revolução poderia desaparecer como movimento precisamente porque começava a triunfar como ordem. É essa distinção que deve orientar nossa investigação.

A Revolução Francesa terminou enquanto sequência histórica determinada. Mas cessaram de operar os princípios que nela encontraram formulação, força política e capacidade institucional? Evidentemente não.

A soberania deslocada para a Nação não desapareceu com a morte dos revolucionários. A igualdade transformada em princípio universal de legitimidade não morreu com Robespierre. A concepção moderna dos direitos não foi enterrada com o Diretório. A reorganização das relações entre indivíduo, sociedade e poder político não foi anulada pela ascensão de Napoleão. A secularização da ordem pública não retornou simplesmente ao ponto anterior. A nova linguagem de liberdade, igualdade, cidadania e soberania continuou a operar muito depois de cessarem os acontecimentos que a haviam lançado com violência sobre a história.

É necessário, portanto, distinguir cuidadosamente duas coisas.

Uma é a Revolução enquanto acontecimento.

Outra é a Revolução enquanto princípio.

A primeira possui datas, protagonistas, fases, instituições e combates. Pode ser estudada cronologicamente. Pode-se discutir onde começou, quando terminou e quais acontecimentos pertencem propriamente ao ciclo revolucionário.

A segunda não se deixa encerrar com a mesma facilidade, porque princípios não morrem quando morrem os homens que os proclamaram. Uma ideia pode sobreviver ao partido que a defendeu; uma concepção de autoridade pode permanecer depois da queda do governo que a instituiu; uma nova definição de liberdade pode tornar-se tão habitual que as gerações posteriores já não percebam a ruptura necessária para produzi-la; uma determinada concepção de igualdade pode deixar de ser programa revolucionário e transformar-se em pressuposto moral; e uma teoria da soberania pode abandonar os panfletos para ingressar nos códigos, nas constituições, nas escolas e, por fim, no próprio senso comum.

É precisamente aqui que a pergunta se torna mais grave:

e se a maior vitória da Revolução tiver ocorrido depois que ela aparentemente terminou?

Enquanto havia barricadas, a resistência permanecia visível; enquanto havia perseguição, conservava-se a consciência do conflito; enquanto havia profanações, confiscos, juramentos impostos e sangue derramado, ainda era possível perceber com nitidez que duas ordens se enfrentavam. Mas quando os princípios revolucionários começaram a apresentar-se não mais como princípios de um partido, mas como evidências universais; não mais como programa de uma facção, mas como condição elementar de legitimidade; não mais como ruptura, mas como normalidade — então a Revolução alcançou uma forma de vitória muito mais profunda.

A violência revolucionária pode conquistar instituições; mas somente a vitória cultural consegue fazer esquecer que aquilo que hoje parece evidente um dia precisou ser imposto contra uma ordem anterior. Por isso, não basta perguntar quando terminou a Revolução Francesa: é preciso perguntar o que exatamente terminou. Terminaram as jornadas revolucionárias? Sim. Terminou o Terror? Sim. Terminou o Diretório? Sim. Desapareceram os seus protagonistas? Sim. Mas desapareceram os princípios? Essa é outra questão.

E é precisamente porque a resposta é negativa que somos obrigados a recuar no tempo.

Se a Revolução fosse apenas uma sucessão de acontecimentos ocorridos entre o final do século XVIII e a ascensão napoleônica, bastaria começar nossa investigação nas crises imediatamente anteriores a 1789. Bastaria estudar a dívida da Coroa, a convocação dos Estados Gerais, a carestia, os conflitos fiscais, os erros políticos e a agitação das ruas. Mas, se a Revolução deve ser compreendida também como condensação histórica de princípios que a precedem e sobrevivem, então a cronologia imediata já não basta.

Precisamos, portanto, investigar a formação dessa atmosfera e perguntar de onde vieram as novas concepções do homem, da liberdade, da autoridade e da sociedade; compreender como a ordem temporal começou progressivamente a conceber-se como autossuficiente; e examinar as rupturas na inteligência europeia, as transformações religiosas, a crise da antiga unidade da Cristandade, o crescimento do subjetivismo, a autonomização do político, as novas teorias da soberania, a transformação das elites, os meios de difusão das ideias e os poderes materiais capazes de convertê-las em ação histórica.

É por essa razão que nossa genealogia não começa em 1789, mas muito antes. E a primeira alteração que devemos examinar ocorre num campo aparentemente distante das multidões parisienses, das finanças da Coroa e da tomada da Bastilha: começa na inteligência, na crise de uma das maiores sínteses intelectuais da Cristandade — a Escolástica.