1. Introdução
Muito antes do trovão, a atmosfera já se alterou. Correntes distantes se aproximam, pressões se modificam, nuvens se acumulam no horizonte e forças invisíveis convergem lentamente até que, num determinado instante, aquilo que vinha sendo preparado sem alarde finalmente irrompe diante dos olhos de todos.
Assim deve ser compreendida a Revolução Francesa.
1789 não foi o nascimento súbito da Revolução. Foi o momento em que uma longa transformação da civilização europeia se tornou politicamente visível. A Bastilha caiu em um dia; a atmosfera que tornou possível a sua queda levara séculos para se formar.
Antes da revolução nas ruas, houve revoluções na inteligência. Antes da ruptura institucional, ocorreram rupturas na filosofia, na religião, na concepção da autoridade, na cultura, na economia e na própria maneira pela qual o homem europeu passou a compreender a si mesmo. A crise da Escolástica, o nominalismo, a crescente autonomização do poder temporal, o Renascimento, a Reforma Protestante, o racionalismo, a centralidade moderna do sujeito, o jansenismo, o galicanismo, a transformação das elites, a ascensão de novos grupos urbanos, o liberalismo nascente, a progressiva secularização dos costumes e, posteriormente, o positivismo, com sua confiança na ciência, na ordem e no progresso como princípios de reorganização da sociedade, não constituem episódios idênticos nem podem ser reduzidos a uma causa única. Formam, porém, correntes distintas de uma mesma atmosfera histórica em mutação.
A Grande Tempestade foi precisamente essa convergência
Quando finalmente irrompeu sobre a França, não encontrou uma civilização intacta. Encontrou uma monarquia financeiramente exaurida, uma aristocracia em parte afastada de suas antigas funções, uma cultura cortesã progressivamente profanizada, uma sociedade atravessada por novos interesses econômicos, uma Igreja ferida por antigas disputas internas e uma camada intelectual que já aprendera a imaginar o homem, a liberdade, a autoridade e a sociedade fora das categorias tradicionais da Cristandade.
Por isso, a Revolução Francesa não pode ser explicada apenas pela tomada da Bastilha, pela carestia, pela dívida da Coroa ou pelos erros de Luís XVI. Esses elementos pertencem à história imediata da explosão. Mas uma explosão não explica a composição da matéria que explodiu.
É preciso recuar.
É preciso perguntar como se formou a atmosfera.
É preciso identificar as correntes.
É preciso seguir os homens, as ideias, os grupos, os interesses e os poderes que convergiram até tornar possível aquilo que, visto apenas a partir de julho de 1789, parece uma súbita irrupção popular.
A Revolução Francesa terminou como sucessão concreta de acontecimentos. Mas a Grande Tempestade não se esgota nas datas da Revolução, porque aquilo que nela irrompeu era anterior a 1789 e continuou a operar depois da morte de seus protagonistas.
Os trovões passaram.
Os ditames permaneceram.