Na pintura, Alfred Roll - La célébration du centenaire des Etats-Généraux de 1789, 5 de maio de 1889. A celebração do centenário dos Estados Gerais de 1789, 5 de maio de 1889 — ou Celebração do Centenário dos Estados Gerais na Bacia de Netuno, 5 de maio de 1889 — óleo sobre tela de Alfred Roll. A pintura de Alfred Roll representa a comemoração, realizada em 5 de maio de 1889 nos jardins de Versalhes, do centenário da convocação dos Estados Gerais de 1789, acontecimento que marcou o início do processo revolucionário francês. No centro da composição aparece o presidente da República, Sadi Carnot, cercado por uma multidão de diferentes classes sociais junto à Bacia de Netuno. Concluída em 1893, a obra possui caráter monumental e comemorativo: apresenta a Terceira República apropriando-se simbolicamente de Versalhes, antiga residência dos reis, para celebrar a Revolução e construir uma memória de unidade nacional. Assim, mais do que registrar uma cerimônia, a pintura manifesta a tentativa republicana de integrar o passado monárquico ao novo imaginário político francês. A comemoração, no entanto, não celebra um acontecimento religioso nem a autoridade de Cristo sobre as nações, mas a origem de uma nova ordem política fundada na soberania humana. O antigo centro simbólico da Cristandade francesa — Versalhes, expressão da monarquia cristã — é reinterpretado para exaltar os princípios da Revolução. Sob essa perspectiva, a pintura representa a substituição gradual da ordem social orientada por Deus por uma ordem fundamentada na autonomia do Estado e da vontade popular, processo que Pio XI identificaria posteriormente como uma das principais causas da crise da civilização cristã.


Introdução

Vivemos uma época em que tudo parece ser combatido, abalado e colocado em dúvida. Não se trata apenas de uma crise política, econômica ou cultural. Há uma guerra mais profunda, que não acontece somente no plano horizontal, entre homens, partidos, governos e nações. Existe também uma guerra vertical, uma guerra espiritual, na qual estão em disputa a inteligência, a vontade, a família, a educação e a própria finalidade da vida humana.

Por isso, o estudo tornou-se uma necessidade. Não basta observar os acontecimentos isolados nem consumir diariamente uma sucessão de notícias, comentários e opiniões. É necessário compreender os princípios que movem os acontecimentos. É preciso conhecer as armas do inimigo, identificar os meios pelos quais o erro se espalha e recuperar as verdades que foram progressivamente retiradas da formação dos católicos.

A Igreja, particularmente por meio dos documentos de seus Papas, advertiu repetidamente sobre as forças que atacavam a constituição cristã da sociedade. Ao longo dos últimos séculos, o Magistério procurou formar os bispos, os sacerdotes, os pais de família e os fiéis para que pudessem resistir a esse processo. A crise presente não surgiu repentinamente. Ela é fruto de um longo combate contra a Realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo, contra a família cristã e contra a educação ordenada ao fim sobrenatural do homem.

A dessacralização da sociedade consiste precisamente na remoção de Deus das diferentes dimensões da existência. Deus deixa de ser reconhecido como princípio, medida e fim da vida humana. A lei divina é excluída do governo, da educação, do matrimônio, da cultura, do trabalho, das relações sociais e da própria concepção do homem. Tudo passa a ser organizado como se Deus não existisse ou fosse irrelevante.

Esse processo não exige necessariamente uma negação explícita da existência de Deus. Uma sociedade pode conservar palavras religiosas, festas, cerimônias e até certa simpatia por Jesus Cristo, enquanto organiza todas as suas escolhas de acordo com critérios inteiramente terrenos. A dessacralização alcança seu êxito quando os homens ainda falam de Deus, mas vivem como se Ele não tivesse autoridade sobre suas decisões.

A recusa da Realeza de Cristo

A raiz das calamidades modernas encontra-se na recusa da soberania de Nosso Senhor Jesus Cristo. Cristo não é Rei somente das consciências privadas nem apenas das pessoas reunidas dentro de uma igreja. Sua Realeza estende-se à totalidade da vida humana.

Ele deve reinar sobre a inteligência, para que o homem conheça a verdade; sobre a vontade, para que escolha o bem; sobre o corpo, para que este seja ordenado segundo sua finalidade moral; sobre a família, para que ela cumpra a missão recebida de Deus; sobre a escola, para que forme o homem integralmente; sobre as leis, para que estejam submetidas à justiça; e sobre a sociedade, para que o bem comum não seja separado do destino eterno.

Uma sociedade católica não é simplesmente uma sociedade na qual existem muitos católicos. É uma sociedade na qual os homens, as famílias e as instituições reconhecem uma finalidade superior: a honra e a glória de Deus e a salvação das almas.

Quando essa finalidade desaparece, os diversos grupos sociais passam a buscar apenas seus próprios interesses. A política reduz-se à disputa pelo poder; a economia torna-se busca ilimitada de vantagens; a educação passa a servir somente ao êxito profissional; e a família transforma-se numa associação condicionada pelos sentimentos de seus membros.

A paz verdadeira não pode ser restaurada enquanto os homens recusarem o império de Cristo. Pode haver acordos, tréguas, compromissos e formas exteriores de estabilidade, mas não haverá ordem profunda. Os homens procuram a paz segundo as coisas do mundo, enquanto rejeitam Aquele que é o fundamento da verdadeira paz.

A recusa da Realeza de Cristo manifesta-se especialmente no laicismo. O laicismo não é apenas a distinção entre as atribuições da Igreja e do poder civil. Ele se torna uma espécie de apostasia social quando pretende afastar Deus e a Igreja da vida pública, como se a religião fosse um assunto puramente privado.

A sociedade apóstata não precisa perseguir abertamente todos os cristãos. Basta afirmar que Cristo não possui direitos sobre as instituições, que a lei divina não deve orientar as leis humanas e que a religião deve permanecer confinada ao espaço íntimo de cada indivíduo.

Desse modo, Deus é progressivamente removido das diferentes esferas da vida. Primeiro, deixa de ser reconhecido nas leis. Depois, desaparece da escola, do matrimônio, da cultura e dos costumes. Finalmente, sua ausência parece normal. O homem já não percebe que alguma coisa lhe foi retirada.

A perda dos sinais sagrados

A dessacralização também se torna visível pela retirada dos sinais que recordavam a presença de Deus. Hospitais que nasceram da caridade cristã e foram conduzidos por religiosos deixaram progressivamente de possuir sacerdotes, religiosas, capelas e crucifixos em seus corredores e quartos.

Não se trata apenas da remoção de um objeto decorativo. O crucifixo diante de um doente recorda que o sofrimento humano não é absurdo, que Cristo sofreu, que a morte não possui a última palavra e que a vida tem uma finalidade eterna. Quando esse sinal desaparece, o hospital passa a tratar apenas do corpo, como se a pessoa não tivesse alma.

O mesmo processo pode alcançar os próprios edifícios religiosos. Imagens, altares, vitrais e objetos sagrados são removidos ou substituídos por formas abstratas, incapazes de elevar a inteligência e o coração para Deus. Cristo deixa de ocupar visivelmente o centro. A beleza, que deveria conduzir à contemplação, é substituída por uma estética que não expressa claramente nenhuma realidade sobrenatural.

A dessacralização é, portanto, a substituição de Deus, que é insubstituível, por critérios humanos, funcionais ou ideológicos. Ela não acontece apenas pela destruição material das coisas sagradas, mas pela perda de seu significado.

A cruz pode permanecer na parede e, ainda assim, não orientar nenhuma decisão. Uma família pode conservar imagens religiosas e, ao mesmo tempo, organizar sua vida segundo princípios contrários à fé. Uma escola pode possuir o nome de um santo e ensinar como se Deus fosse irrelevante. Uma igreja pode continuar aberta e, no entanto, já não conduzir os homens ao temor, à adoração, à penitência e à conversão.

A família como primeira sociedade

A sociedade não é uma realidade abstrata. Ela é constituída por homens, famílias e grupos humanos. Por isso, a dessacralização da sociedade começa necessariamente pela dessacralização da família.

A família é uma pequena sociedade. Nela o homem aprende a amar, obedecer, respeitar, sacrificar-se, trabalhar, rezar e cumprir os próprios deveres. Quando esses princípios são destruídos dentro de casa, a sociedade inteira sofre suas consequências.

Uma casa católica não se forma somente por grandes discursos nem por manifestações ocasionais de entusiasmo religioso. Ela se forma pela repetição de pequenos atos: a oração perseverante, o respeito, o pudor, a vigilância, a caridade e o dever bem cumprido.

Os pais não recebem de Deus apenas crianças para alimentar, vestir e preparar para uma profissão. Recebem almas que devem conduzir ao Céu. Essa verdade transforma inteiramente a compreensão da paternidade e da maternidade.

A missão dos pais começa desde o princípio da vida do filho. A gestação não é apenas um acontecimento biológico nem uma experiência privada do casal. A criança concebida é uma vida recebida de Deus e uma alma destinada à eternidade.

A mãe cristã deve contemplar o filho não somente como alguém que deseja ter ao seu lado nesta vida, mas como uma alma que espera ver um dia no Céu, cantando eternamente os louvores de Deus. Desde a gravidez, a oração, a confiança em Nossa Senhora, o cuidado com a saúde e a preparação para o Batismo pertencem à missão espiritual dos pais.

O bem da alma está acima de todos os bens temporais, ainda que estes também sejam necessários. A principal preocupação dos pais não pode limitar-se ao conforto, à aparência, ao êxito ou à posição social dos filhos. Antes de tudo, devem desejar que eles vivam e morram na graça de Deus.

A perda dessa consciência é um dos sinais mais profundos da dessacralização. A vida passa a ser julgada somente por sua utilidade, conveniência ou capacidade de proporcionar satisfação. A gravidez pode ser considerada um inconveniente; a fecundidade, um obstáculo; o filho, um peso; e a educação religiosa, uma escolha secundária.

Quando o homem deixa de olhar a vida como um dom de Deus, começa a julgar-se senhor absoluto dela. Aquilo que deveria ser acolhido com reverência passa a ser submetido ao cálculo da vontade individual.

O matrimônio dessacralizado

O matrimônio e a família são, ao mesmo tempo, os primeiros alvos e as primeiras vítimas da transformação moderna. O matrimônio não é uma construção inventada pelos homens nem uma convenção que os esposos podem modificar segundo suas preferências. Ele possui uma ordem recebida de Deus.

A união natural entre homem e mulher foi elevada por Cristo à dignidade de sacramento. Por isso, o matrimônio cristão não pode ser reduzido a uma experiência afetiva, a uma associação de interesses ou a um contrato provisório.

Quando se perde sua natureza sacramental, o matrimônio passa a depender da permanência dos sentimentos. Enquanto os esposos experimentam satisfação, a união é considerada válida; quando os sentimentos mudam, acredita-se que o vínculo possa ser desfeito.

A indissolubilidade, então, parece opressiva. A fecundidade parece um obstáculo. O sacrifício parece inútil. A autoridade dos pais passa a ser considerada violência. A obediência é apresentada como perda de autonomia. A família deixa de ser uma sociedade orientada para Deus e para a geração e educação dos filhos, tornando-se uma associação revogável de vontades individuais.

Cada membro passa a afirmar seu espaço, suas regras, seus interesses, seus bens e seus projetos particulares. Em vez de uma comunhão ordenada ao bem comum da família, forma-se uma convivência instável entre indivíduos autônomos.

A dessacralização começa quando o matrimônio deixa de ser reconhecido como uma realidade recebida de Deus e passa a ser considerado uma construção humana, modificável pela vontade dos esposos ou pelas determinações do Estado.

Se o matrimônio é apenas uma construção, nenhuma de suas propriedades permanece segura. Sua unidade, indissolubilidade, abertura à vida e finalidade educativa podem ser redefinidas segundo as mudanças culturais. O Estado passa a considerar-se autorizado a estabelecer o que é o matrimônio, quem pode contraí-lo, quanto deve durar e quais são suas finalidades.

A família cristã, porém, não recebe sua natureza do Estado. O poder civil pode reconhecer juridicamente o matrimônio, mas não pode alterar sua essência. As leis do matrimônio não estão sujeitas à convenção humana, nem mesmo à convenção dos próprios esposos.

Um matrimônio verdadeiramente cristão possui uma força sobrenatural. Pai e mãe, unidos sacramentalmente, recebem graças para resistir às guerras que atingem a família: dificuldades econômicas, sofrimentos, enfermidades, crises morais e pressões contrárias à educação dos filhos.

Uma família santa pode irradiar seus efeitos para toda a sociedade. De um lar formado pela oração, pelo sacrifício e pela fidelidade podem surgir santos, sacerdotes, religiosos, governantes justos, educadores e homens capazes de servir ao bem comum.

Do mesmo modo, a corrupção da família não permanece restrita ao interior da casa. Ela se prolonga na escola, no trabalho, na política e na cultura. Uma sociedade composta por famílias desordenadas não poderá conservar por muito tempo uma ordem justa.

O pudor e a santificação do corpo

A dessacralização atinge também a compreensão do corpo humano. O corpo deixa de ser visto como parte da pessoa criada por Deus, templo destinado à graça e instrumento para a prática do bem. Passa a ser tratado como objeto de exposição, prazer ou afirmação individual.

Por isso, a formação católica deve incluir o pudor, a modéstia e a castidade. Essas virtudes não são imposições exteriores nem desprezo pelo corpo. Ao contrário, preservam sua dignidade e o protegem contra a redução a instrumento de curiosidade ou sensualidade.

A educação para o pudor começa na infância. Os pais devem ensinar, antes de tudo pelo próprio exemplo, que o corpo merece respeito, mesmo quando não há outras pessoas presentes, pois o homem vive sempre diante de Deus.

A perda do pudor não acontece de uma única vez. Ela se estabelece por pequenas permissões, pela repetição de comportamentos, pela exposição constante e pela aceitação do que antes provocaria vergonha.

Aquilo que se torna habitual deixa de causar estranhamento. A pessoa já não percebe que certas atitudes podem ser ocasião de maus pensamentos, quedas ou escândalos para o próximo.

A cultura contemporânea amplia enormemente esses perigos por meio das imagens, vídeos e redes sociais. O que antes seria visto por poucas pessoas pode agora ser exposto publicamente e permanecer indefinidamente disponível. A intimidade da criança e da família transforma-se em conteúdo.

A modéstia, porém, não se limita às roupas. O falar, o agir, os gestos, as brincadeiras e as conversas também podem edificar ou escandalizar. Uma casa não se torna católica apenas porque seus moradores frequentam a igreja, mas porque procuram ordenar todas as dimensões da vida segundo a presença de Deus.

A vigilância sobre os filhos

Os pais possuem o dever de vigiar os filhos. Essa vigilância não nasce da desconfiança absoluta nem do desejo de controlar cada movimento, mas da consciência da fragilidade humana e dos perigos que cercam a alma.

A criança e o jovem ainda não possuem experiência suficiente para avaliar todas as consequências de suas escolhas. Muitas vezes não compreendem plenamente a malícia daquilo que fazem, mas os hábitos adquiridos permanecem e podem ser recordados mais tarde como ocasiões de pecados ainda maiores.

No tempo de São João Maria Vianney, os pais eram advertidos sobre os perigos de enviar os filhos sozinhos aos campos, longe de seus olhos. Hoje, os “campos” são muito mais amplos.

São os lugares nos quais os filhos permanecem sem a presença e a orientação dos pais. Podem ser ambientes físicos, amizades, festas, escolas, entretenimentos, conteúdos digitais, redes sociais, vídeos e conversas privadas.

Entregar uma criança ou um adolescente a esses ambientes sem discernimento é colocá-lo próximo ao fogo e apenas ordenar-lhe que não se queime. A simples recomendação para que “se comporte bem” não elimina as ocasiões de pecado.

Muitas vezes, os próprios pais concedem a primeira permissão e mais tarde se queixam de que já não possuem autoridade. O filho aprende que a vontade dos pais pode ser vencida pela insistência e que certos limites são apenas provisórios.

Depois de algum tempo, já não pede autorização. Aquilo que começou como exceção torna-se costume. A primeira permissão converte-se numa permissão permanente.

Os pais desejam que os filhos tenham vida social, conheçam pessoas, se divirtam e um dia constituam família. Esses desejos podem ser legítimos. Contudo, devem ser subordinados ao bem da alma.

Não é possível expor deliberadamente os filhos a ambientes perigosos e esperar que permaneçam imunes. A natureza humana é ferida, as tentações são reais e os maus exemplos possuem força.

A vigilância exige sacrifício. Os pais precisam conhecer o que os filhos assistem, leem, escutam, aprendem e desejam. Precisam saber com quem convivem e quais valores estão sendo transmitidos nos ambientes que frequentam.

Não basta reclamar depois que os hábitos já foram adquiridos. A formação deve começar antes, pela criação de critérios, virtudes e convicções sólidas.

A educação como transmissão da dessacralização

A educação é um dos principais meios pelos quais a dessacralização se transmite de uma geração para outra. Educar significa formar o homem segundo seu verdadeiro fim. Como o fim último do homem é Deus, não pode existir educação plenamente verdadeira quando Deus, a graça, a lei moral e o destino eterno são excluídos.

A educação católica não consiste apenas em acrescentar uma aula de religião a um conjunto de conteúdos neutros. Ela deve ordenar toda a formação à verdade sobre Deus, o homem e o mundo.

A inteligência deve ser formada para conhecer a verdade. A vontade, para amar e escolher o bem. A afetividade, para ser governada pela virtude. O corpo, para cumprir sua finalidade moral. O trabalho e a profissão, para servirem ao bem e não apenas à ambição pessoal.

Quando Deus é excluído, a educação passa a formar o homem como se ele fosse um ser puramente terreno. A formação profissional substitui a formação integral. O êxito temporal substitui a salvação. A autonomia substitui a obediência à verdade. A satisfação substitui o dever.

Uma escola dessacralizada não precisa ensinar formalmente o ateísmo. Basta ensinar todas as matérias como se Deus fosse irrelevante. O aluno pode até conservar alguma prática religiosa particular, mas aprende a separar a fé de todas as outras dimensões da vida.

A ciência é apresentada sem referência à ordem criada. A história, sem a Providência. A moral, sem a lei divina. A liberdade, sem a verdade. A sexualidade, sem a finalidade do corpo. A política, sem uma justiça superior à vontade humana.

Desse modo, a criança aprende que Deus pertence à igreja ou à oração privada, mas não ao estudo, ao trabalho, à cultura, às escolhas morais ou à vida pública.

Essa separação forma pessoas que podem conservar afetos religiosos e, ao mesmo tempo, tomar todas as decisões importantes como se Deus não existisse.

A educação católica deve produzir algo inteiramente diferente. Deve formar uma pessoa não somente informada sobre a religião, mas desejosa da redenção, da penitência, da graça e da salvação.

O educando deve compreender a finalidade da própria vida. Deve saber que não nasceu somente para adquirir bens, obter reconhecimento ou realizar projetos temporais. Sua vida é breve, frágil e ordenada à eternidade.

Por isso, os pais não podem delegar inteiramente a formação dos filhos. Mesmo quando utilizam escolas e outros meios educativos, continuam responsáveis diante de Deus por aquilo que entra na inteligência e no coração das crianças.

Se os ambientes educativos agem como se Deus fosse irrelevante, os pais precisam reconhecer o perigo e buscar meios de oferecer uma formação verdadeiramente católica.

O modernismo e a dissolução da verdade

A dessacralização também se difunde por uma guerra contra a inteligência. O homem já não é ensinado a submeter seu pensamento à verdade objetiva. A verdade passa a ser confundida com experiência, sentimento, opinião ou construção pessoal.

Quando a inteligência se separa da verdade, o homem pode afirmar coisas sem verificar os fatos, acusar sem provas e repetir mentiras como se fossem certezas. A realidade deixa de ser a medida do pensamento; o pensamento individual passa a pretender ser a medida da realidade.

A liberdade também é separada da lei. Em vez de ser compreendida como capacidade de escolher o bem, torna-se o direito de fazer tudo aquilo que a vontade deseja.

A afetividade é separada da virtude. Os sentimentos tornam-se critério de moralidade. Se algo produz prazer ou identificação emocional, é considerado bom; se exige sacrifício, é tratado como opressão.

O corpo é separado de sua finalidade moral. A pessoa acredita possuir poder absoluto para redefinir seu significado, sua natureza e seu uso.

Esses erros não permanecem restritos aos livros. Eles entram nas famílias, nas escolas, nos costumes e até na compreensão da religião.

A fé deixa de ser adesão à verdade revelada e transforma-se em experiência subjetiva. A doutrina passa a ser adaptada ao sentimento do homem moderno. A exigência de conversão é substituída pela confirmação das escolhas individuais.

Forma-se, assim, uma religião que conserva o nome de Cristo, mas já não deseja submeter todas as coisas ao seu império.

O combate contra essa dissolução deve acontecer também no campo da formação intelectual. A ignorância deixa o homem desarmado. Ele se torna vulnerável a pequenos textos, frases isoladas, notícias falsas, manipulações e falácias.

As revoluções não se realizam apenas pelas armas. São preparadas por uma guerra literária, cultural e educativa. Antes de mudar as instituições, é preciso mudar a maneira pela qual os homens pensam.

Por isso, o católico precisa estudar. Deve conhecer o Magistério, os bons livros, os sermões dos santos e a doutrina da Igreja. O estudo não é vaidade intelectual, mas meio de defesa da fé e de correção da própria vida.

A formação verdadeira não serve apenas para identificar os erros dos outros. Ela deve revelar também os erros presentes em nós. Não basta reconhecer intelectualmente uma verdade; é necessário permitir que ela corrija os costumes.

A pessoa que recebe formação, mas se recusa a mudar, aumenta sua responsabilidade. Não basta ouvir. É necessário admitir o erro, rejeitá-lo e emendar a vida.

A dessacralização dentro da casa

A perda do sentido de Deus não se manifesta apenas nas grandes leis e instituições. Ela aparece nas conversas, nos hábitos e nos entretenimentos domésticos.

Uma família pode rezar e frequentar os sacramentos, mas passar grande parte do tempo em murmurações, julgamentos temerários, maledicências, discussões inúteis e críticas constantes ao próximo.

Nesse caso, a religião ainda não alcançou toda a vida. Cristo é reconhecido durante a oração, mas ignorado durante as refeições, nas conversas e nos momentos de descanso.

Se o entretenimento da família consiste em falar mal dos outros, condenar pessoas e alimentar ressentimentos, a casa não está inteiramente submetida à Realeza de Cristo.

O católico deve recordar que tudo o que vê, ouve, diz e faz está sujeito à lei de Deus. A mesa, o trabalho, o repouso, o sofrimento e a prosperidade são ocasiões de virtude ou de pecado.

À mesa, podem surgir a sensualidade e a gula. Na recreação, a leviandade e as conversas inúteis. No trabalho, a avareza, a inveja e a vaidade. Na oração, a negligência, as distrações e o tédio. No sofrimento, as queixas e murmurações. Na prosperidade, o orgulho e o desprezo pelo próximo. Diante dos elogios, a soberba. Diante das ofensas, a ira.

Os santos temiam essas inclinações e, por isso, vigiavam, rezavam e faziam penitência. Muitos se retiraram para lugares solitários não porque estivessem livres das tentações, mas porque reconheciam a força dos maus exemplos.

Nós, ao contrário, muitas vezes permanecemos tranquilos em meio a perigos contínuos. Alguns quase não percebem que são tentados, porque raramente resistem às tentações.

A casa católica deve ser um lugar de vigilância, não de medo desordenado. Os pais e os filhos devem reconhecer a fragilidade humana e recorrer com confiança à graça de Deus.

A necessidade da conversão

A restauração da sociedade não pode começar apenas por reformas políticas ou mudanças exteriores. Ela deve começar pela conversão dos homens.

De nada adianta defender publicamente o Reinado de Cristo e viver privadamente segundo o espírito do mundo. Cristo deve reinar efetivamente na inteligência, na vontade, nos costumes e nas decisões.

Isso exige uma entrega real. O homem precisa reconhecer a fragilidade da própria vida. Pode despertar pela manhã sem saber se chegará ao final do dia. A morte pode interromper repentinamente os planos, os afetos e as seguranças temporais.

Diante da morte, revela-se aquilo que verdadeiramente possui valor. A esposa, os filhos, os bens e a própria vida devem ser colocados nas mãos de Deus.

Essa entrega não é apenas um sentimento. Ela envolve todas as forças da alma: a inteligência, que reconhece a soberania de Deus; a vontade, que aceita sua lei; e o coração, que aprende a amar o que Ele ordena.

A formação católica deve preparar o homem para essa entrega. Deve arrancá-lo da superficialidade, da distração permanente e do consumo incessante de conteúdos que não alimentam a inteligência nem a alma.

Já não é possível viver apenas de fragmentos, notícias, imagens e comentários rápidos. O combate atual exige conhecimento sólido, vida sacramental, oração e vigilância.

A restauração começa pela família

Se a dessacralização entrou na sociedade pela retirada de Deus das almas, das famílias e da educação, a restauração deverá percorrer o caminho inverso.

Cristo deve voltar a reinar em cada alma. Depois, deve reinar na casa, no matrimônio e na educação dos filhos. Somente então sua Realeza poderá novamente ser reconhecida pela sociedade.

A restauração começa por pequenos atos: uma oração feita com perseverança, um dever cumprido, uma conversa interrompida antes de se transformar em maledicência, um conteúdo recusado, uma roupa escolhida com modéstia, uma permissão negada por amor à alma do filho, um sofrimento suportado sem murmuração.

Essas ações parecem pequenas, mas formam costumes. Os costumes formam as pessoas. As pessoas formam as famílias. As famílias formam a sociedade.

São João Maria Vianney transformou uma comunidade não apenas pela celebração da Santa Missa e pelo atendimento das confissões, mas também por meio de uma formação clara e exigente. Seus sermões não amenizavam a gravidade do pecado, porque o que estava em jogo era a salvação das almas.

A verdadeira caridade não consiste em esconder o perigo. Consiste em advertir, corrigir e conduzir à conversão.

A família católica deve recuperar essa seriedade. Os pais devem voltar a considerar-se responsáveis pelas almas dos filhos. Os esposos devem reconhecer a dignidade sacramental de sua união. A educação deve voltar a ordenar todas as coisas ao fim último. O corpo deve ser tratado com pudor. A inteligência deve buscar a verdade. A vontade deve submeter-se à lei de Deus.

Não é necessário esperar que o mundo se transforme para começar. A restauração pode iniciar-se dentro da própria casa.

Ainda que os pais tenham falhado, os filhos podem dar bom exemplo. Quando virem os adultos abandonarem a oração, os sacramentos, os deveres religiosos e o estudo da fé, podem fazer o contrário. Talvez seu exemplo contribua para salvar aqueles que deveriam tê-los formado.

Do mesmo modo, os pais que reconhecem seus erros não devem permanecer paralisados pela culpa. A falta de formação pode explicar muitas negligências passadas, mas o conhecimento recebido exige agora uma resposta. É necessário admitir, corrigir e recomeçar.

O combate é difícil, mas Deus não abandona aqueles que recorrem a Ele. O homem precisa enfrentar as próprias inclinações, os maus exemplos, as seduções do mundo e as forças que procuram afastá-lo do Céu. Contudo, Deus é um Pai infinitamente bom e não permitirá que o combate seja superior às forças sustentadas por sua graça.

Todas as vezes que recorrermos a Ele, receberemos o auxílio necessário para combater e vencer.

A sociedade será novamente sacralizada quando Cristo for proclamado não apenas com os lábios, mas reconhecido como verdadeiro Senhor da vida. Ele deve ser Rei da família, da casa, da educação, do trabalho, da cultura e das instituições.

A dessacralização é a expulsão de Deus de todas essas realidades. A restauração é a devolução de todas elas a Nosso Senhor Jesus Cristo.

O combate acontece no coração, na inteligência, na vida cotidiana e no interior da família. Não podemos entregar nossa vida, nossa casa, nossos filhos e nossa nação ao espírito do mundo.

Tudo deve ser colocado sob o império vitorioso de Cristo e sob a proteção da Santíssima Virgem. Somente assim a família poderá voltar a ser verdadeiramente católica e a sociedade poderá reencontrar a ordem que perdeu.

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