Há verdades católicas que o mundo tolera enquanto permanecem confinadas ao interior das igrejas, ao recinto das consciências e à intimidade das famílias. Pode-se falar de Jesus como consolador dos aflitos, mestre de bondade, exemplo moral ou presença espiritual. Pode-se até chamá-Lo de Rei — desde que essa realeza não ultrapasse os limites da metáfora, da devoção privada e do sentimento religioso.

O conflito começa quando os fiéis proclamam aquilo que Pio XI reafirmou solenemente na Encíclica Quas Primas

Jesus Cristo possui verdadeiro domínio sobre os homens e sobre as sociedades humanas.

Cristo não é Rei meramente pelas palavras daqueles que O reconhecem. É verdadeiramente Rei e possui domínio sobre todas as coisas visíveis ou não visíveis. Ainda, Ele não reina somente sobre os que, por um efeito da graça, O reconhecem. Sua soberania não depende de eleição, consenso, juízo, evolução cultural ou autorização do Estado. Seu domínio funda-se naquilo que Ele é e naquilo que fez: é o Verbo encarnado, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, e é também o Redentor que adquiriu para Si uma raça eleita, pelo preço de Seu Sangue.

É precisamente aqui que a doutrina do Reinado Social de Cristo entra em choque frontal com uma das pretensões fundamentais da sociedade moderna: a construção de uma ordem humana que se considere autônoma diante de Deus, ou melhor, sem Deus.

Pio XI começa Quas Primas com um diagnóstico cuja atualidade impressiona. Os males que afligem o mundo estão ligados ao fato de que muitos expulsaram Jesus Cristo e Sua lei da vida, recusando-Lhe lugar não apenas nos assuntos privados, mas também na política. Enquanto as pessoas e Estados rejeitarem o domínio do Salvador, não haverá fundamento seguro para uma paz duradoura. É por isso que a paz somente é encontrada no Reino de Cristo.

Essa afirmação desmonta uma das grandes ilusões contemporâneas: a de que seria possível conservar indefinidamente os frutos morais da civilização cristã depois de arrancadas suas raízes.

Quer-se a dignidade humana sem o Criador.
Quer-se a justiça sem a lei divina.
Quer-se a família sem uma natureza recebida.
Quer-se autoridade sem uma lei superior.
Quer-se liberdade sem verdade.
Quer-se fraternidade sem a paternidade de Deus.
Quer-se paz sem o Príncipe da Paz

E depois, diante da fragmentação social, do ódio, da solidão, da dissolução familiar, da instrumentalização do corpo humano e da crescente incapacidade de reconhecer qualquer verdade comum, procura-se uma solução produzida pelas mesmas premissas que alimentaram a desordem.

Pio XI propõe o contrário: 

Não se restaura a sociedade aperfeiçoando a exclusão de Cristo, mas restituindo-Lhe aquilo que Lhe pertence por direito.

1. A realeza de Cristo não é uma metáfora piedosa

Um dos pontos essenciais de Quas Primas consiste em impedir que a expressão “Cristo Rei” seja esvaziada por uma interpretação meramente simbólica.

É verdade que Cristo reina nas inteligências, porque é a Verdade; nas vontades, porque Sua vontade humana foi perfeitamente submetida ao Pai e porque Sua graça move o homem ao bem; e nos corações, porque Seu amor atrai as almas. Mas Pio XI vai além: declara que o título e o poder de Rei pertencem a Cristo, enquanto homem, também em sentido verdadeiro e próprio.

Sua soberania possui fundamento natural e adquirido.

Natural, porque a união hipostática une na única Pessoa divina do Verbo a natureza humana de Cristo: Aquele homem que nasceu da Virgem Maria é verdadeiramente o Filho eterno de Deus.

Adquirido, porque Ele é nosso Redentor. Não pertencemos absolutamente a nós mesmos. Fomos redimidos por Seu Sangue.

Por isso, a realeza de Cristo não pode ser reduzida ao território subjetivo da experiência religiosa, ou mesmo dum sentimento religioso. Não é um reinado imaginado pelo crente. Tampouco nasce da consciência coletiva. Não é projeção psicológica das necessidades humanas. Não é símbolo mutável de uma comunidade em evolução.

Cristo é Rei independentemente de ser reconhecido.

Uma assembleia pode negar Sua soberania, mas não pode revogá-la.

Um parlamento pode ignorar Sua lei, mas não pode tornar justo aquilo que é intrinsecamente injusto.

Um tribunal pode proclamar novos direitos, mas não pode alterar a natureza do homem.

Um Estado pode expulsar o nome de Deus de suas instituições, mas não pode criar um único átomo do universo sobre o qual pretende exercer soberania.

Eis a diferença entre o poder humano e o poder de Cristo: os governantes administram; Cristo possui.

2. O grande erro moderno: Cristo fora da vida pública

Pio XI é absolutamente explícito ao rejeitar a ideia de que Cristo não tenha autoridade alguma sobre os assuntos civis. É grave erro negar-Lhe tal autoridade pois não apenas os indivíduos, mas também as famílias e os Estados estão sob Seu domínio.

Este é talvez o ponto de Quas Primas mais incômodo para a mentalidade contemporânea.

O homem moderno admite, quando muito, um "Cristo privatizado".

Pode-se rezar em casa.

Pode-se praticar privadamente qualquer religião.

Pode-se possuir uma imagem religiosa.

Pode-se ter experiências espirituais.

Pode-se dizer que a fé “faz bem”.

O que não se admite é que a verdade revelada por Deus possua consequências objetivas para a vida social. A sociedade moderna tende a dizer ao cristão:

"Creia no que desejar, desde que sua fé não pretenda julgar a ordem pública."

Podes ter Cristo no Sacrário, mas não na legislação. Cristo na consciência, mas não na educação. Cristo no funeral, mas não na definição da vida humana. Cristo no casamento religioso, mas não na compreensão pública do matrimônio. Cristo na assistência aos pobres, mas não no julgamento moral das estruturas econômicas. Cristo como inspiração subjetiva, mas jamais como Senhor. 

Essa operação não destrói necessariamente a religião de imediato. Muitas vezes faz algo mais eficaz: domestica-aConcede-se ao cristianismo uma liberdade condicionada à sua irrelevância pública. Exatamente contra o exílio de Cristo, que Pio XI ergue a doutrina de Sua realeza social.

3. Pascendi Dominici Gregis: a anatomia intelectual da apostasia moderna

É neste ponto que a Encíclica Pascendi Dominici Gregis, de São Pio X, ilumina profundamente Quas Primas.

• Pio XI mostra a enfermidade da sociedade que expulsou Cristo.

• São Pio X investiga o mecanismo intelectual e religioso pelo qual a própria verdade cristã é dissolvida por dentro.

Na Pascendi, o modernismo não aparece simplesmente como gosto por novidades, uso de tecnologia, mudança de costumes ou atualização da linguagem. Trata-se de um sistema de tendências filosóficas, teológicas, históricas e religiosas capazes de alterar a própria noção de fé.

São Pio X identifica, entre suas raízes, o agnosticismo, o imanentismo e uma concepção evolucionista da religião. No sistema denunciado pelo Papa, a razão é progressivamente impedida de alcançar objetivamente Deus; a religião passa a ser procurada no interior da consciência; a fé é interpretada a partir do sentimento e da experiência; e as fórmulas dogmáticas são submetidas à dinâmica da vida e da evolução histórica.

Percebe-se imediatamente a consequência social:

Se Deus não pode ser conhecido como verdade objetiva;

— se a religião nasce fundamentalmente da experiência interior;

— se o dogma é expressão histórica de uma consciência religiosa;

— se as fórmulas precisam adaptar-se continuamente às mutações da vida;

— então nenhuma sociedade poderá reconhecer publicamente a soberania objetiva de Cristo sem ser acusada de impor como verdade universal aquilo que o sistema moderno considera como experiência particular.

Aqui está a ligação profunda entre Pascendi e Quas Primas.

Para expulsar Cristo da sociedade, primeiro é necessário tornar duvidosa a possibilidade de conhecê-Lo como verdade.

Quando Cristo deixa de ser a Verdade que julga o homem, torna-se uma experiência produzida ou interpretada pelo homem.

Quando a Revelação deixa de vir verdadeiramente do alto, a consciência passa a reivindicar supremacia.

Quando o dogma deixa de ser verdade recebida, transforma-se em fórmula negociável.

Quando a fé deixa de julgar o mundo, o mundo passa a julgar a fé.

E então a pergunta já não é:

“O que Deus revelou?”

Mas:

“O que o homem contemporâneo ainda consegue aceitar?”

4. Da verdade objetiva à “consciência moderna”

Uma expressão merece atenção especial na Pascendi: a pretensão de ajustar a religião à chamada “consciência moderna”.

São Pio X descreve os modernistas como desejosos de transformar múltiplos aspectos da vida eclesiástica segundo as exigências atribuídas aos novos tempos. No campo político e social, denuncia a tendência de exigir que a autoridade eclesiástica se amolde às disposições civis; no campo doutrinal, registra a pretensão de adequar dogmas e catequese às novas condições intelectuais.

O problema não consiste em falar de modo compreensível aos homens de cada época. A Igreja sempre anunciou a povos concretos, em línguas concretas, enfrentando problemas concretos.

O problema surge quando o homem de determinada época deixa de ser destinatário da verdade e passa a ser medida da verdade.

Essa inversão é decisiva.

Na ordem católica, o homem moderno, como qualquer homem, deve converter-se à verdade.

Na lógica modernista, a verdade deve converter-se ao homem moderno.

Na ordem católica, o século é julgado pelo Evangelho.

Na lógica modernista, o Evangelho é selecionado conforme a sensibilidade do século.

Na ordem católica, a consciência deve ser formada.

Na lógica moderna, a consciência reivindica ser soberana.

Na ordem católica, a liberdade deve orientar-se para o bem.

Na lógica revolucionária, o bem tende a ser redefinido pela autonomia da liberdade.

É assim que a sociedade passa gradualmente do “Não servirei” ao “Quem é Deus para nos governar?”

5. A separação radical entre Cristo e a cidade

A convergência entre os dois Pontífices torna-se ainda mais impressionante quando observamos o tratamento dado à relação entre Igreja e Estado.

São Pio X expõe criticamente a lógica modernista segundo a qual fé e ciência seriam esferas estranhas entre si e, por analogia, Igreja e Estado deveriam tornar-se realidades igualmente separadas. O Papa mostra também a consequência extrema dessa lógica: nas questões temporais, a Igreja acaba submetida à soberania do poder civil, sobretudo quando a religião se manifesta por atos exteriores.

Dezoito anos depois, em Quas Primas, Pio XI reafirma precisamente o princípio contrário: é erro grave negar a autoridade de Cristo nas coisas civis, porque Seu domínio se estende aos homens não apenas isoladamente, mas também enquanto reunidos em famílias e Estados. O Papa ensina ainda que governantes e povos possuem deveres diante de Cristo e que a vida pública não pode legitimamente agir como se Deus fosse irrelevante.

Temos, portanto, dois movimentos opostos.

O movimento da modernidade:

– Deus é afastado da sociedade.
– Cristo é afastado da política.
– A Igreja é afastada da educação.
– A lei natural é afastada do direito.
– A moral objetiva é afastada da liberdade.
– Por fim, qualquer resistência cristã é apresentada como ameaça à ordem pública.

O movimento do Reinado Social:

A inteligência reconhece a verdade.
– A vontade submete-se ao bem.
– A pessoa reconhece a lei de Deus.
– A família ordena-se segundo sua natureza.
– A sociedade reconhece uma justiça superior ao Estado.
– O governante recorda que não é proprietário do povo.
– A autoridade humana reconhece que será julgada.

A questão, portanto, não é simplesmente administrativa.

É religiosa.

6. A falsa neutralidade

A sociedade secular costuma apresentar-se como neutra. Mas é necessário perguntar: neutra entre quê e quê?

Quando o Estado afirma que nenhuma verdade religiosa pode orientar a ordem pública, já adotou uma tese sobre a religião.

Quando a escola ensina que a verdade moral é construção social, já adotou uma antropologia.

Quando a lei trata a natureza humana como matéria redefinível pela vontade, já adotou uma metafísica, ainda que negue possuir uma.

Quando o poder público declara que todas as concepções últimas da vida são equivalentes no espaço social, já assumiu uma concepção específica da verdade.

Quando se permite que todas as forças culturais disputem a formação das crianças, exceto uma fé católica integral, não há neutralidade: há seleção.

A praça pública jamais permanece vazia. Retira-se a Cruz e outra coisa ocupa o lugar. Expulsa-se o Decálogo e outro código moral será imposto. Nega-se a soberania divina e a soberania humana tenderá a absolutizar-se. Destrona-se Cristo e não se cria um território sem rei.

É aqui que a expressão evangélica “príncipe deste mundo” adquire terrível força para compreender nossa época.

Não se deve imaginar necessariamente uma conspiração visível, centralizada, em que todos os agentes sociais tenham consciência explícita de servir ao mal. A dominação espiritual pode realizar-se também pela disseminação de princípios, desejos, hábitos e estruturas que afastam sistematicamente o homem de Deus.

O príncipe deste mundo não necessita que todos pronunciem seu nome:

– Basta que Cristo não reine.

Basta que a criatura viva como se não tivesse Criador.

Basta que a liberdade se revolte contra a verdade.

Basta que o prazer se torne critério.

Basta que a riqueza se torne fim.

Basta que o Estado se imagine fonte última do direito.

Basta que a opinião substitua a realidade.

Basta que o pecado perca seu nome.

Basta, enfim, que a sociedade se organize sobre um grande princípio prático:

"Não queremos que Este reine sobre nós."

7. A modernização que se torna apostasia

É necessário, entretanto, evitar uma confusão.

O católico não é inimigo da técnica, não é inimigo da medicina, não é inimigo das descobertas científicas, não é inimigo da eficiência administrativa. Não é inimigo de toda transformação institucional, não é inimigo do progresso material enquanto verdadeiro progresso.

A crítica católica dirige-se a outra coisa: à pretensão de que o amadurecimento da humanidade consista em sua emancipação de Deus.

Uma estrada melhor não é modernismo.

Um hospital mais eficiente não é modernismo.

Uma descoberta científica não é modernismo.

Uma nova ferramenta de comunicação não é modernismo.

Mas existe uma “modernização” ideológica que procura reconstruir o homem como se sua natureza fosse indefinida, sua origem irrelevante, seu fim desconhecido e sua liberdade absoluta. Essa modernização não melhora simplesmente os instrumentos. Ela altera os fins. E quando uma civilização possui instrumentos cada vez mais poderosos, mas já não sabe para que existe o homem, seu progresso material pode acelerar sua decadência espiritual.

Uma sociedade tecnicamente avançada pode ser moralmente bárbara. Pode operar máquinas sofisticadas para destruir crianças no ventre. Pode dominar algoritmos e não dominar as paixões. Pode prolongar a vida e ignorar seu sentido. Pode conectar bilhões de pessoas e produzir uma epidemia de solidão. Pode multiplicar informação e perder a sabedoria. Pode falar incessantemente de direitos e já não saber o que é o homem. Pode proclamar tolerância enquanto se torna incapaz de tolerar a verdade. Esse é um dos dramas de uma civilização que pretende receber as coisas de Deus sem receber Deus.

8. O Estado sem Deus não permanece limitado

Há uma razão política profunda para o Reinado Social de Cristo: ao reconhecer uma lei acima de si, o poder humano admite que possui limites; o governante, consciente de que não é Deus, compreende que nem tudo lhe é permitido; a lei positiva, referida à lei natural, reconhece que nem toda vontade majoritária é justa; e a autoridade, sabendo que também será julgada, deixa de considerar o cidadão propriedade do Estado. É nesse sentido que Pio XI ensina que os governantes devem exercer a autoridade tendo em vista o bem comum e a dignidade de seus súditos, reconhecendo uma ordem que não nasce simplesmente de sua própria vontade, e afirma que os Estados, assim como os indivíduos, possuem deveres de reverência e obediência para com Cristo.

A alternativa moderna parece libertadora:

“O Estado não se submeterá a Deus.”

Mas imediatamente surge a pergunta:

A quem, então, se submeterá o Estado?

À maioria? Mas a maioria pode ser injusta.

À Constituição? Mas quem interpreta a Constituição?

Aos tribunais? Mas quem limita os tribunais?

À ciência? Mas a ciência experimental não define por si mesma o bem e o mal.

À vontade popular? Mas a vontade popular pode ser manipulada.

Ao consenso? Mas o consenso muda.

À história? Mas a história não possui vontade moral.

Quando toda lei superior é recusada, o poder humano não desaparece. Ele cresce.

Uma sociedade que teme a soberania de Cristo pode terminar submetida à soberania de burocracias, mercados, partidos, tribunais, aparelhos ideológicos, meios de comunicação e sistemas tecnológicos que jamais derramaram uma gota de sangue por ela.

Cristo, porém, reina do alto de uma Cruz.

9. O modernismo religioso prepara a rendição social

Eis a advertência mais urgente de São Pio X.

A sociedade não seria descristianizada com tamanha facilidade se os próprios cristãos conservassem integralmente a fé, porque a perda da ordem cristã raramente começa por uma apostasia aberta e declarada; muitas vezes, ela se inicia de modo mais sutil, no interior da própria linguagem religiosa, por pequenas concessões que alteram gradualmente o centro de gravidade da fé. 

É precisamente por isso que o modernismo se mostra especialmente perigoso: ele não precisa começar com uma negação explícita de Deus, da Revelação ou do dogma, mas pode introduzir uma simples mudança de eixo, aparentemente discreta, pela qual a verdade cede lugar à experiência, o dogma à sensibilidade, a Revelação à consciência individual, a conversão à adaptação, a eternidade à relevância imediata e a doutrina ao processo.

Pouco a pouco, aquilo que deveria julgar o homem passa a ser julgado por ele; aquilo que deveria converter o mundo começa a moldar-se segundo as exigências do mundo; e aquilo que deveria ser recebido como verdade objetiva passa a depender da percepção, do sentimento e das categorias do homem contemporâneo. Assim, sem que se pronuncie de início uma negação frontal, opera-se uma inversão decisiva: o centro já não está no que Deus revelou, mas no modo como o homem experimenta; já não no que a Igreja ensina, mas no que a sensibilidade presente tolera; já não na necessidade de conformar a vida à verdade, mas na tentativa de conformar a verdade às expectativas do tempo. É desse deslocamento quase imperceptível que se chega, por etapas, do “Deus disse” ao “o homem atual sente” — e, uma vez consumada essa passagem, a linguagem cristã pode até permanecer, enquanto o eixo propriamente cristão já foi abandonado.

São Pio X observou que, no sistema modernista, a fé tende a ser subordinada à ciência em seu próprio esquema e que a religião é submetida à evolução da vida; denunciou ainda a pressão para reformar doutrina, catequese, governo e atuação eclesiástica segundo aquilo que se apresentava como exigência da consciência moderna.

O resultado pastoral dessa mentalidade é previsível.

Primeiro, deixa-se de ensinar uma doutrina porque “as pessoas não compreenderiam”.

Depois, deixa-se de ensiná-la porque “as pessoas se afastariam”.

Depois, sugere-se que talvez a doutrina tenha sido mal formulada.

Depois, afirma-se que pertencia a outro contexto histórico.

Depois, trata-se sua defesa como rigidez.

Por fim, aqueles que continuam acreditando no que sempre foi ensinado passam a ser vistos como problema.

A capitulação social começa frequentemente com a capitulação intelectual. Uma Igreja que já não ousa dizer ao homem “converte-te” terminará pedindo ao mundo: “aceita-nos”Mas essa mesma mentalidade, quando penetra ambientes e estruturas eclesiásticas, pode produzir uma contradição terrível: diante do mundo, multiplica concessões; diante dos fiéis que resistem à mudança de eixo, redescobre subitamente a linguagem da autoridade. Ao erro exterior oferece diálogo; à resistência interior exige submissão. Mostra-se paciente com aqueles que contestam a verdade recebida, mas severa com aqueles que se recusam a vê-la dissolvida. Assim, homens que já não ousam exigir que o mundo se converta podem terminar exigindo que os fiéis se adaptem ao processo de acomodação ao mundo.

10. Cristo Rei: uma doutrina contra a religião domesticada

A festa de Cristo Rei, tal como concebida por Pio XI em 1925, possui uma força que ultrapassa a piedade individual.

O Papa desejava recordar publicamente os direitos de Cristo sobre a sociedade. Em Quas Primas, lamenta precisamente que o império de Cristo sobre as nações tenha sido rejeitado, que a religião verdadeira tenha sido nivelada às falsas religiões e que o nome do Redentor fosse afastado da vida pública. Também atribui à timidez e à resistência fraca de muitos homens bons parte do avanço dos inimigos da Igreja.

Essa advertência atinge diretamente o católico contemporâneo que, mesmo sem se declarar modernista, aprendeu a pensar segundo as categorias do modernismo.

Talvez nunca tenha havido tantos cristãos especialistas em explicar por que não é prudente afirmar integralmente o cristianismo.

“Não é o momento.”

“O mundo não entenderia.”

“Isso afastaria as pessoas.”

“Precisamos dialogar.”

“Não podemos parecer radicais.”

“É necessário adaptar.”

“É melhor não entrar nessa questão.”

“Isso pertence ao passado.”

E assim, por uma sucessão de prudências sem fortaleza, chega-se à apostasia prática. Ora, ninguém negou Cristo formalmente. Apenas não se encontrou ocasião conveniente para proclamá-Lo.

11. O que significa trabalhar pelo Reinado Social de Cristo?

O Reinado Social de Cristo não deve ser reduzido a uma ideologia partidária, nem confundido com a adoração do Estado ou com a ilusão de que uma eleição, por si só, possa converter uma civilização inteira. Também não se trata de identificar o Reino sobrenatural de Deus com um projeto meramente temporal, como se a graça pudesse ser substituída por programas políticos, estruturas jurídicas ou vitórias eleitorais. Muito menos se poderia invocar a realeza de Cristo para justificar tiranias, abusos de poder ou coerções injustas em nome da religião. Sempre que a fé é instrumentalizada como ornamento de ambições humanas, deixa-se de proclamar o senhorio de Cristo e passa-se a usar o nome de Deus para consagrar a vontade dos homens.

O verdadeiro Reinado Social de Cristo começa por uma realidade mais profunda: a submissão da realidade inteira à verdade inteira. Ele nasce quando a inteligência é formada para reconhecer o verdadeiro, quando a consciência deixa de ser moldada pelo espírito do século e passa a ser educada segundo a lei de Deus, quando a família volta a ser compreendida como célula primeira da ordem cristã, e quando os filhos são educados como filhos de Deus, não como propriedade cultural do Estado, do mercado ou das modas ideológicas de seu tempo. Por isso, não basta conservar devoções privadas enquanto se abandona a formação das inteligências, dos costumes, das instituições e da cultura.

Esse reinado exige, portanto, uma obra paciente de restauração cristã. Ele se manifesta na formação de escolas verdadeiramente católicas, na produção de uma arte marcada pela fé, na criação de uma imprensa capaz de servir à verdade, na constituição de ambientes familiares, profissionais e culturais nos quais Cristo não seja tratado como um visitante tolerado, mas como Senhor. Exige também a formação de juristas, médicos, professores, empresários, trabalhadores, políticos e intelectuais que não vivam uma dupla personalidade moral, como se fosse possível professar a fé em um campo da vida e negá-la silenciosamente em todos os outros.

Por isso, o católico não pode aceitar a ideia de ser católico apenas no domingo e agir, na segunda-feira, como se Cristo não existisse. A economia possui uma ordem moral; a política não está dispensada da justiça; a educação nunca é neutra diante da verdade; a medicina deve reconhecer a dignidade da pessoa humana; a sexualidade possui uma finalidade inscrita na natureza; a comunicação pode servir à verdade ou à manipulação; a tecnologia deve submeter-se ao bem do homem, e não o homem ao seu poder; as leis humanas podem ser injustas; as maiorias podem errar; o Estado não é Deus; e o homem não pertence ao mundo, porque foi criado para Deus.

É nesse sentido que Pio XI, em Quas Primas, deseja que Cristo reine na inteligência, na vontade, no coração e no próprio corpo do homem. Mas a Encíclica não limita esse reinado à esfera íntima ou puramente devocional: insiste também que o domínio de Cristo alcança as sociedades, de modo que as leis, a administração da justiça e a vida pública não podem proceder como se os mandamentos de Deus e os princípios cristãos fossem irrelevantes. O Reinado Social começa no interior do homem, mas não termina ali; parte da conversão da alma, mas se prolonga necessariamente na família, na cultura, nas instituições, nas leis e em toda a ordem temporal.

12. Uma sociedade sem Cristo não permanece sem culto: entre dois estandartes

No fundo, a crise moderna coloca novamente a humanidade diante de dois estandartes.

De um lado:

Non serviam.
Não servirei.

Do outro:

Adveniat regnum tuum.
Venha a nós o Vosso Reino.

Não existe síntese estável entre ambos.

Toda sociedade precisa de um princípio de ordem, de um critério de verdade e de uma ideia, ainda que implícita, sobre o bem e o mal. Por isso, aquela que recusa ser governada pela verdade não se torna livre de todo governo: acaba submetida à força, ao desejo, ao dinheiro, ao medo, à propaganda ou à técnica. Do mesmo modo, ao rejeitar a lei divina, não ingressa em um espaço neutro e sem normas; ao contrário, multiplica incessantemente as leis humanas, como se a proliferação de regulamentos pudesse preencher o vazio deixado pela perda de uma ordem superior. E, quando abandona o culto devido a Deus, tampouco se torna incapaz de adorar: apenas transfere para realidades criadas a reverência que recusou ao Criador, absolutizando a nação, a raça, o partido, o mercado, a sexualidade, a celebridade, o progresso ou a própria autonomia humana.

A sociedade que destrona Cristo, portanto, não permanece vazia, neutra ou simplesmente republicana em sua praça pública. O trono abandonado não fica desocupado por muito tempo. Outros altares são erguidos, novos sacerdócios se formam, outros dogmas passam a definir o permitido e o proibido, novas heresias são identificadas e perseguidas, diferentes promessas de redenção são oferecidas às massas e, em nome delas, exigem-se sacrifícios concretos. Mudam os símbolos, os ritos, a linguagem e os objetos de veneração, mas permanece a mesma estrutura fundamental: o homem continua buscando um absoluto ao qual servir, uma verdade suprema à qual submeter-se e uma esperança final em nome da qual justificar suas renúncias.

Por isso, a questão nunca é simplesmente saber se uma sociedade terá ou não terá dogmas, cultos, sacerdócios, interditos e promessas de salvação. A verdadeira questão é quais serão seus dogmas, diante de que altar se inclinará, quem exercerá o sacerdócio de sua consciência pública, quais dissidências serão tratadas como heresia e a que tipo de salvação estará disposta a sacrificar seus filhos. 

Ao expulsar Cristo da ordem social, o homem não elimina a religião da vida pública: cria seitas políticas, econômicas, culturais ou tecnológicas, mais implacáveis justamente porque já não reconhecem acima de si nenhuma autoridade capaz de julgá-las. E toda falsa divindade, cedo ou tarde, exige seus sacrifícios.

Conclusão: É preciso que Ele reine

Pascendi e Quas Primas podem ser lidas como duas grandes sentinelas colocadas em pontos sucessivos da crise moderna.

São Pio X percebeu a ofensiva contra as raízes da fé: a razão enfraquecida pelo agnosticismo, a Revelação interiorizada pelo imanentismo, o dogma submetido à evolução, a autoridade pressionada pela consciência moderna, a religião progressivamente adaptada às categorias do mundo. O Papa chegou a caracterizar o modernismo como uma concentração orgânica de erros capaz de corroer o edifício católico por dentro.

Pio XI mostrou a consequência civilizacional da expulsão de Cristo: pessoas, famílias e Estados recusando Seu domínio, enquanto a sociedade perde progressivamente os fundamentos da verdadeira paz. Como remédio, propôs a restauração do reconhecimento da soberania de Nosso Senhor.

A grande batalha de nosso tempo não é, portanto, apenas entre direita e esquerda.

Nem entre conservadores e progressistas.

Nem apenas entre capitalismo e socialismo.

Nem apenas entre tradição e modernismo.

A batalha mais profunda é sobre quem possui o direito de reinar.

Cristo?

Ou o homem emancipado de Cristo?

A lei de Deus?

Ou a vontade autônoma?

A verdade recebida?

Ou a verdade fabricada?

A ordem da Criação?

Ou a reconstrução ideológica da realidade?

Não nos enganemos: o mundo aceita muitas imagens de Jesus.

– Aceita o Jesus sentimental.

O Jesus revolucionário.

O Jesus terapeuta.

O Jesus filósofo.

O Jesus símbolo.

O Jesus domesticado.

O Jesus silencioso diante dos poderes.

O que o mundo não suporta é Cristo Rei.

Porque um Rei não é apenas uma figura simbólica, nem um ornamento espiritual colocado à margem da existência humana: um Rei possui direitos, estabelece leis, exige fidelidade e exerce juízo. Sua autoridade não depende do reconhecimento daqueles que lhe estão sujeitos, nem nasce da aprovação das criaturas. Ele não se torna rei porque os homens consentem, votam, toleram ou lhe concedem espaço; sua realeza precede toda aceitação humana e permanece verdadeira mesmo diante da recusa. Por isso, Cristo não pede autorização às criaturas para ser quem é, não submete seu senhorio ao espírito de cada época e não aguarda que o mundo reconheça seus direitos para então possuí-los. Se é Rei, sua verdade obriga, sua lei julga, sua autoridade reclama obediência e sua soberania alcança também aqueles que prefeririam viver como se Ele não reinasse.

E é por isso que a doutrina do Reinado Social de Cristo permanece tão urgente.

Não basta que Cristo reine escondido em algumas consciências enquanto as instituições formam gerações para viver contra Sua lei.

Não basta conservar crucifixos nas paredes enquanto se aceita a expulsão prática da lei de Deus.

Não basta cantar “Cristo vence, Cristo reina, Cristo impera” se, diante do mundo, agimos como se Sua soberania fosse uma opinião particular.

É preciso recuperar a coragem católica de dizer:

Cristo é Rei das almas e dos povos.
Rei das famílias e das nações.
Rei dos governantes e dos governados.
Rei da inteligência e da vontade.
Rei da escola e da cultura.
Rei da economia e da política.
Rei da vida privada e da vida pública.
Rei não porque o mundo O elegeu, mas porque todas as coisas foram criadas por Ele, para Ele e sob Seu domínio.

O século pode recusá-Lo.

Os parlamentos podem ignorá-Lo.

As universidades podem ridicularizá-Lo.

Os poderosos podem expulsar Seu nome.

Os próprios cristãos podem acovardar-se.

Nada disso altera Seu direito.

A pergunta definitiva não é se Cristo reinará, pois Ele mesmo já reina.

A pergunta é se estaremos entre aqueles que combatem sob Seu estandarte — ou entre aqueles que, pela revolta, pela adaptação ou pela covardia, tomam parte no motim contra o Rei e preparam os caminhos para o príncipe deste mundo.

Christus vincit.
Christus regnat.
Christus imperat.

É preciso que Ele reine!