Aos veneráveis irmãos Patriarcas, Primazes, Arcebispos e Bispos.

Veneráveis irmãos, saúde e Bênção Apostólica.


Quando aprouve a Deus, rico em misericórdia, colocar Nossa humilde pessoa na suprema Cátedra do Bem-aventurado Pedro e confiar-Nos, embora nenhum mérito Nos recomendasse, o poder de vigário de Nosso Senhor Jesus Cristo para o governo de toda a sua Igreja, pareceu-Nos que ressoava aos Nossos ouvidos aquela voz divina:

“Apascenta os meus cordeiros; apascenta as minhas ovelhas.”

Isto é, que ao Romano Pontífice, sucessor do mesmo Pedro, fora confiada a missão de conduzir não somente os cordeiros do rebanho do Senhor, que são os povos espalhados por toda a terra, mas também as ovelhas, isto é, os Bispos, que, como mães dos cordeiros, geram os povos em Jesus Cristo e novamente os dão à luz.

Recebei, portanto, irmãos, juntamente com esta Nossa carta, as palavras de vosso Pastor. Chamados ao dever de vos estimular, segundo a plenitude do mandato que Deus Nos confiou, compreendereis quanto Nos empenhamos, por meio de Nossos convites e exortações, em não negligenciar nenhum de Nossos deveres, e quão grande é a força de Nossa caridade paterna para convosco. Movidos por ela, desejamos ardentemente que, do progresso das santas ovelhas, provenham alegrias eternas para os Pastores.

1. A disciplina e a santidade do clero

Antes de tudo, trabalhai com empenho e com todas as vossas forças para que a integridade dos costumes e o zelo pelo culto divino resplandeçam no Clero; para que a disciplina eclesiástica seja conservada íntegra e sã e, onde houver decaído, seja restaurada.

É suficientemente conhecido que nada existe que instrua, estimule e inflame mais eficazmente todo o povo à piedade, à religião e às normas da vida cristã do que o exemplo daqueles que se consagraram ao ministério divino.

Portanto, a perspicácia de vosso entendimento deve voltar-se, antes de tudo, para que sejam inscritos na milícia clerical, mediante uma escolha cuidadosa, aqueles dos quais se possa razoavelmente esperar que sua vida seja objeto de admiração para os que caminham na lei do Senhor, que avancem de virtude em virtude e que, por suas obras, proporcionem proveito espiritual às vossas Igrejas.

Certamente, é melhor possuir poucos ministros, mas honestos, idôneos e úteis, do que muitos que de modo algum contribuam para a edificação do Corpo de Cristo, que é a Igreja.

Não ignorais, irmãos, quanta prudência os Sagrados Cânones exigem dos Bispos a esse respeito. Não vos deixeis, portanto, afastar do que foi prescrito — e que deve ser integralmente observado — nem por qualquer consideração humana, nem por inoportunas pressões do ambiente, nem pelos pedidos de protetores e patronos.

Acima de tudo, deve-se observar o preceito do Apóstolo de não impor precipitadamente as mãos sobre ninguém, quando se trata de promover alguém às Sagradas Ordens e aos santíssimos ministérios, acima dos quais nada existe de mais divino.

Com efeito, não basta possuir a idade que as sagradas leis da Igreja prescrevem para cada Ordem. Tampouco se deve abrir indiscriminadamente o acesso aos graus superiores, como se fosse um direito, a todos aqueles que já tenham sido colocados em alguma Ordem inferior.

Deveis investigar com grande atenção e diligência se o modo de viver daqueles que receberam os primeiros ministérios foi conveniente e se o progresso deles nas doutrinas sagradas foi tal que possam verdadeiramente ser julgados dignos de ouvir:

“Sobe mais para cima.”

Quanto melhor é que alguns permaneçam em um grau inferior do que sejam promovidos a outro mais elevado, com maior perigo para si mesmos e ocasião de escândalo para os outros.

2. A instituição e o cuidado dos seminários

E porque é de máxima importância que aqueles que são chamados ao serviço do Senhor sejam formados, desde a juventude, na piedade, na integridade dos costumes e na disciplina canônica, como pequenas plantas ainda tenras em seu princípio, deveis cuidar para que, onde ainda não tenham sido instituídos Seminários para os Clérigos, sejam estabelecidos o mais depressa possível.

Do mesmo modo, sejam ampliados os que já existem, caso, em razão das necessidades da Igreja, seja necessário um número maior de alunos, empregando-se para esse fim os recursos que os Bispos já têm autoridade para obter. Nós lhes acrescentaremos outros, caso sejamos por vós informados de sua necessidade.

É indispensável que esses Colégios sejam acompanhados por vosso cuidado particular. Deveis visitá-los frequentemente, examinar a vida, a índole e o progresso nos estudos de cada um dos jovens, destinar à sua formação mestres preparados e homens dotados de espírito eclesiástico, honrar algumas vezes com vossa presença seus exercícios literários ou suas funções eclesiásticas e, por fim, conceder alguns privilégios àqueles que tiverem dado provas mais evidentes de seus méritos e alcançado maior louvor.

Não vos arrependereis de ter proporcionado semelhante irrigação a essas pequenas árvores durante o seu crescimento. Pelo contrário, vosso trabalho produzirá frutos consoladores na copiosa abundância de bons operários.

Sem dúvida, os Bispos frequentemente costumam lamentar-se de que a messe é grande e os operários são poucos. Talvez, porém, devessem igualmente lamentar-se por não terem dedicado o necessário zelo à formação de operários proporcionados e adequados à messe.

Os bons e valorosos operários, com efeito, não nascem feitos, mas são formados; e é sobretudo à diligência e ao empenho dos Bispos que compete formá-los.

3. A escolha dos párocos e a instrução dos fiéis

É, além disso, da máxima importância que a cura das almas seja confiada àqueles que, pela doutrina, pela piedade, pela pureza dos costumes e pelos insignes exemplos de boas obras, possam resplandecer diante dos outros, a ponto de serem justamente considerados luz e sal do povo.

Estes são verdadeiramente os vossos primeiros colaboradores na instrução, no governo, na purificação e na condução pela via da salvação do rebanho que vos foi confiado, bem como no estímulo desse mesmo rebanho às virtudes cristãs.

É fácil, portanto, compreender quanto deveis cuidar para que sejam escolhidos para o ofício paroquial aqueles que merecidamente forem julgados os mais idôneos para dirigir proveitosamente as multidões.

Insisti principalmente para que todos aqueles que têm cura de almas alimentem com palavras salutares, ao menos aos domingos e nas demais festas de preceito, os povos que lhes foram confiados, conforme a capacidade deles e a própria.

Ensinem tudo aquilo que os fiéis de Cristo devem aprender para a sua salvação, expliquem os preceitos da lei divina e os dogmas da Fé e inculquem nas crianças os primeiros rudimentos dessa mesma Fé, removendo inteiramente todos os maus costumes, onde quer que se manifestem.

Como poderão, com efeito, escutar, se não houver quem pregue? Ou de que maneira os povos poderão compreender uma lei que prescreve uma reta fé e um reto comportamento, se os pastores das almas forem, nesse ofício, indolentes, negligentes e inativos?

Não se pode compreender plenamente com a inteligência, nem explicar suficientemente por palavras, quanto dano provém para a República Cristã da negligência daqueles aos quais foi confiada a cura das almas, sobretudo no que diz respeito ao ensino do catecismo às crianças.

Será também de grande proveito que vos empenheis para que tanto aqueles que têm cura de almas quanto os que são destinados a ouvir as confissões dos penitentes se dediquem, durante alguns dias de cada ano, aos exercícios espirituais.

Nesse piedoso retiro, certamente se renovarão em sua vida espiritual e serão revestidos do alto com as virtudes necessárias para desempenhar, com maior cuidado e prontidão, os deveres destinados à glória de Deus e ao proveito e à salvação espiritual do próximo.

4. A obrigação da residência episcopal

Sabeis, irmãos, que, por preceito divino, foi ordenado a todos os Pastores de almas que conheçam suas ovelhas e as alimentem mediante a pregação da palavra divina, a administração dos Sacramentos e o exemplo de todas as boas obras.

É evidente, porém, que não podem cumprir esses e os demais deveres pastorais aqueles que não vigiam, não permanecem junto de seu rebanho e não guardam assiduamente a vinha do Senhor à qual foram destinados como guardiães.

Deveis, portanto, permanecer em vosso posto de vigilância e conservar residência pessoal em vossa Igreja ou Diocese, à qual estais obrigados pelo vínculo de vosso encargo, conforme declaram e prescrevem claramente numerosos decretos dos Concílios Gerais e as Constituições de Nossos Predecessores.

Guardai-vos de pensar que seja permitido aos Bispos ausentarem-se durante três meses de cada ano por capricho ou por qualquer motivo.

Para que semelhante ausência seja lícita aos Bispos, é necessário que uma causa justa a exija e que, ao mesmo tempo, esteja excluída a possibilidade de que dela resulte algum dano para o rebanho.

Lembrai-vos também de que o futuro Juiz será Aquele diante de cujos olhos todas as coisas estão nuas e descobertas. Fazei, portanto, com que a causa de vossa ausência seja verdadeiramente tal que possa ser reconhecida como legítima por esse supremo Príncipe dos Pastores, que em breve vos pedirá contas do sangue das ovelhas confiadas aos vossos cuidados.

Nesse julgamento, em vão o Pastor procurará defender-se com a desculpa de que o lobo roubou e devorou as ovelhas enquanto ele estava ausente e nada sabia.

Com efeito, examinando-se profundamente a questão, torna-se evidente que nenhum mal ou escândalo surge numa Diocese assim abandonada que não deva ser atribuído àquele que deveria reconduzir, mediante suas admoestações, os súditos que se desviavam do caminho reto, estimulá-los com o exemplo, animá-los com as palavras e contê-los com a autoridade e a caridade.

Quem não compreende que é muito melhor tratar, quando necessário, dos assuntos de outros lugares por intermédio de terceiros do que fazê-lo mediante o afastamento do próprio Bispo de sua Diocese?

E quem não compreende que o dever, certamente mais urgente que todos os outros, de guardar e dirigir o rebanho deve ser desempenhado diretamente pelo Bispo, e não por intermediários?

Ainda que esses ministros sejam tão idôneos e estimados quanto possível, o rebanho não está tão acostumado a ouvir a voz deles como está a ouvir a voz de seu verdadeiro pastor.

Uma vasta experiência demonstra que a atuação vicária desses ministros não substitui suficientemente a vigilância e a ação do próprio Bispo, que é auxiliado por uma graça particular do Espírito Santo.

5. A visita pastoral das dioceses

Nós vos advertimos e exortamos a respeito dessas coisas, irmãos, porque, assim como em toda administração doméstica nada é mais útil do que o próprio pai de família examinar frequentemente todas as coisas e promover, mediante sua vigilância, a atividade e a diligência dos seus, assim também vos ordenamos que visiteis pessoalmente vossas Igrejas e Dioceses.

Somente uma causa grave e legítima poderá permitir que semelhante tarefa seja confiada a outros. Desse modo, conhecereis pessoalmente vossas ovelhas e o estado de vosso rebanho.

Aquela sentença absolutamente segura que acima recordamos — segundo a qual não se admite desculpa para o pastor quando o lobo devora as ovelhas e ele nada sabe — é certamente causa de grande temor e terror.

Sem dúvida, o Bispo ignorará muitas coisas; muitas lhe permanecerão ocultas ou, ao menos, chegarão ao seu conhecimento mais tarde do que seria necessário, se ele não percorrer todas as partes de sua Diocese.

Se não vê pessoalmente, se não escuta, se não examina todas as coisas em cada lugar, não saberá quais males devem receber o remédio, quais são suas causas e de que modo poderá prudentemente providenciar para que, uma vez reprimidos, não voltem a manifestar-se.

Além disso, é tão grande a fragilidade humana que, no campo do Senhor, cujo cuidado foi confiado ao Bispo, pouco a pouco crescem ervas daninhas, espinhos e plantas inúteis e nocivas, caso o cultivador não retorne frequentemente para cortá-los.

Desse modo, a própria florescência obtida mediante seus vigilantes trabalhos acabará, com o decorrer do tempo, por enfraquecer.

Não é suficiente, porém, que as Dioceses sejam visitadas por vós e que se providencie o seu governo mediante disposições oportunas. Resta-vos ainda o dever de vigiar, com todo o empenho, para que tudo aquilo que foi determinado durante as visitas seja verdadeiramente colocado em prática.

Com efeito, nenhuma será a utilidade das leis, ainda que sejam excelentes, se aquilo que foi estabelecido por palavras não for corretamente transformado em obras por aqueles que receberam essa incumbência.

Portanto, depois de terdes preparado remédios salutares para expulsar ou afastar as doenças das almas, não permitais que por isso o vosso zelo diminua. Devereis, pelo contrário, promover com todas as vossas forças a execução das disposições que tiverdes estabelecido.

Alcançareis esse objetivo principalmente por meio de visitas reiteradas.

6. O Bispo como modelo de seu rebanho

Finalmente, para dizer muitas coisas em poucas palavras, irmãos, é necessário que, em toda função sagrada e eclesiástica e em todo exercício do culto divino e da piedade, sejais pessoalmente os promotores, os condutores e os mestres.

Assim, tanto o Clero quanto todo o rebanho receberão luz como que do esplendor de vossa santidade e serão aquecidos pela chama de vossa caridade.

Na frequente e devota oferta do tremendo Sacrifício, na celebração solene das Missas, na administração dos Sacramentos, no exercício dos Ofícios Divinos, na dignidade e no esplendor dos templos, na disciplina de vossa casa e de vossa família, no amor aos pobres e no auxílio que lhes prestardes, na visita e assistência aos enfermos, no acolhimento dos peregrinos e, finalmente, em toda manifestação da virtude cristã, sede o modelo de vosso rebanho.

Desse modo, todos sejam vossos imitadores, assim como vós sois imitadores de Cristo, conforme convém aos Bispos, que o Espírito Santo estabeleceu para governar a Igreja de Deus, que Ele adquiriu com o seu próprio sangue.

Considerai frequentemente os Apóstolos, em cujo lugar fostes colocados, para que sigais suas pegadas no suportar os trabalhos, as vigílias e as aflições; no afastar os lobos de vossos apriscos; no arrancar as raízes dos vícios; no expor a lei evangélica; e no reconduzir à penitência salutar aqueles que pecaram.

Estará certamente ao vosso lado Deus onipotente e misericordioso, cujo auxílio torna todas as coisas possíveis para nós.

Tampouco vos faltará o auxílio dos Príncipes religiosos, como sem nenhuma dúvida esperamos. Além disso, não vos faltarão os socorros desta Santa Sé todas as vezes que julgardes necessária a autoridade de Nosso ministério apostólico.

Portanto, com grande coragem e confiança, vinde a Nós, todos vós, a quem amamos como irmãos, colaboradores e Nossa coroa em nome de Jesus Cristo.

Vinde à Santa Igreja Romana, vossa mãe, guia e mestra, e mãe, guia e mestra de todas as Igrejas; àquela de onde teve origem a Religião, onde se encontra a pedra da Fé, a fonte da unidade dos sacerdotes e a doutrina da verdade incorrupta.

Nada, com efeito, pode ser para Nós mais desejável e agradável do que servir, juntamente convosco, à glória de Deus e trabalhar pela conservação e propagação da Fé Católica.

Pela salvação das almas, derramaríamos com a maior alegria, se necessário fosse, Nosso próprio sangue e entregaríamos Nossa própria vida.

Que agora vos incite e estimule em vossa carreira a grande e segura recompensa que vos espera.

Quando aparecer o Príncipe dos Pastores, recebereis a incorruptível coroa da glória, a coroa da justiça reservada aos fiéis dispensadores dos mistérios de Deus e aos fortes e vigilantes guardiães da casa de Israel, que é a Santa Igreja do próprio Deus.

Nós, que, embora indignos, fazemos as suas vezes sobre a terra, abençoamos com grande afeto a vós, irmãos, e, com amor paterno, concedemos Nossa Bênção Apostólica também ao vosso Clero e ao vosso povo fiel.

Dado em Roma, junto de Santa Maria Maior, no dia 3 de dezembro de 1740, primeiro ano de Nosso Pontificado.