Bispo, teólogo, polemista e adversário católico da herança revolucionária

Charles-Émile Freppel foi uma das grandes figuras do catolicismo francês do século XIX. Teólogo, professor da Sorbonne, especialista nos Padres da Igreja, apologista contra o racionalismo religioso, colaborador dos trabalhos preparatórios do Concílio Vaticano I, bispo de Angers, fundador da Universidade Católica do Oeste e deputado da direita francesa, reuniu numa só vida a cátedra, o púlpito, o episcopado e a tribuna parlamentar. Nasceu em 1º de junho de 1827, em Obernai, na Alsácia (França), e morreu em 22 de dezembro de 1891, em Angers (França).

Para compreender Freppel, porém, não basta enumerar seus cargos. Ele pertenceu a uma geração de eclesiásticos que via a crise moderna como um conflito de princípios: de um lado, a ordem cristã, a autoridade, a tradição, a liberdade da Igreja e a soberania de Deus; de outro, o naturalismo político, o racionalismo, a secularização do ensino e a herança ideológica de 1789. É nesse quadro que sua figura adquire particular importância para uma história católica da Revolução Francesa. O historiador Jean-Clément Martin dedicou justamente um estudo específico às relações entre Freppel e a Revolução Francesa, observando o papel excepcional do bispo nas controvérsias do centenário de 1789. 

1. Um filho da Alsácia

Freppel nasceu em Obernai, na Alsácia, região de forte personalidade histórica, cultural e religiosa. A origem alsaciana marcaria profundamente seu temperamento e, mais tarde, seu patriotismo. Formou-se nos seminários de Estrasburgo e foi ordenado sacerdote em 1849, segundo a notice de autoridade da Biblioteca Nacional da França.

Desde jovem revelou extraordinária vocação intelectual. Não seria essencialmente um administrador eclesiástico transformado ocasionalmente em escritor. Ao contrário: sua carreira começou sob o signo do ensino, da disputa doutrinal e da argumentação. Lecionou, passou pelo ambiente acadêmico parisiense e rapidamente se destacou como homem capaz de enfrentar as correntes intelectuais modernas não apenas mediante exortações pastorais, mas por meio da história, da teologia e da crítica racional. A própria Biblioteca Nacional da França o registra como sacerdote da diocese de Estrasburgo, doutor em teologia, professor de eloquência sagrada e, posteriormente, bispo e deputado.

Esse aspecto é decisivo. Freppel pertence àquela linhagem de prelados para os quais a defesa da Igreja exigia uma reconquista da inteligência. A crise religiosa moderna não era, para ele, simplesmente uma decadência de costumes. Era também uma crise das ideias, da filosofia, da interpretação histórica e da concepção do homem.

2. Paris, a Sorbonne e a formação de um polemista

A ascensão intelectual de Freppel ocorreu sobretudo em Paris. Ligado ao ambiente de Sainte-Geneviève e da Faculdade de Teologia de Paris, tornou-se professor de eloquência sagrada na Sorbonne, exercendo atividade docente durante grande parte do período que vai de meados da década de 1850 até 1869. Suas aulas atraíram público e consolidaram sua reputação como professor e orador.

Mas a expressão “eloquência sagrada” pode enganar o leitor contemporâneo. Não se tratava meramente de ensinar técnicas retóricas para sermões. Freppel mergulhou profundamente nos primeiros séculos cristãos e fez dos Padres da Igreja um dos centros de sua produção intelectual. Seus cursos originaram estudos sobre os Padres Apostólicos, os apologistas do século II, Santo Irineu e outras grandes figuras da Patrística. Uma síntese acadêmica moderna observa que sua produção de cursos de eloquência sagrada chegou a uma série extensa de volumes sobre autores como os Padres Apostólicos, São Justino, Santo Irineu, Tertuliano, São Cipriano, Clemente de Alexandria, Orígenes e Bossuet.

Entre seus livros desse período encontram-se:

  • Les Pères apostoliques et leur époque — 1859;
  • Les Apologistes chrétiens au deuxième siècle — 1860;
  • Saint Irénée et l’éloquence chrétienne dans la Gaule aux deux premiers siècles — 1861.

Essas obras são registradas também na biografia histórica da Assembleia Nacional francesa.

Aqui aparece uma característica fundamental de Freppel: ele recorria à Antiguidade cristã para responder aos problemas modernos. Para ele, estudar os Padres não era refugiar-se arqueologicamente no passado. Era recuperar a estrutura intelectual do cristianismo para enfrentar uma sociedade que pretendia reconstruir a religião segundo os critérios do racionalismo contemporâneo.

3. O combate a Ernest Renan

Esse perfil tornou-se particularmente visível em 1863, quando Ernest Renan publicou sua célebre e controversa Vie de Jésus. Freppel respondeu com o Examen critique de la Vie de Jésus de M. Renan, obra publicada no mesmo ano e rapidamente difundida em várias edições. O catálogo HathiTrust e a Biblioteca Nacional da França confirmam a existência e a circulação da obra; uma sexta edição de 1863 é igualmente documentada.

O episódio é revelador. Freppel percebeu que a nova ofensiva contra o cristianismo não precisava apresentar-se sob a forma grosseira do ateísmo militante. Ela podia conservar a linguagem de admiração por Jesus enquanto eliminava progressivamente:

  • sua divindade;
  • o sobrenatural;
  • os milagres;
  • a autoridade dos Evangelhos;
  • a realidade objetiva da Revelação.

Por isso, sua reação a Renan integra uma batalha muito mais ampla contra a dissolução racionalista da fé. A questão não era somente defender uma biografia tradicional de Nosso Senhor, mas enfrentar um método intelectual que submetia o cristianismo a pressupostos filosóficos previamente hostis ao sobrenatural. O próprio registro bibliográfico da obra identifica explicitamente seu caráter de crítica à Vie de Jésus de Renan.

É aqui que Freppel se aproxima muito do problema que você vem estudando em seu projeto sobre o modernismo: ele percebeu, décadas antes da condenação sistemática do modernismo por São Pio X, que a crise podia ocorrer mediante a conservação do vocabulário cristão acompanhada da transformação de seu conteúdo.

4. Roma, Pio IX e o Concílio Vaticano I

Sua autoridade intelectual levou-o a Roma. Em 1869, foi chamado para colaborar nos trabalhos preparatórios do futuro Concílio Vaticano I. A biografia histórica da Assembleia Nacional registra que ele foi convocado a Roma para os trabalhos preparatórios do Concílio; estudos posteriores igualmente o identificam como teólogo ligado à preparação conciliar.

Em 27 de dezembro de 1869, foi nomeado para a sé episcopal de Angers. Seu episcopado começou, portanto, num dos momentos mais dramáticos da história europeia e eclesial do século XIX: o Vaticano I, a questão da infalibilidade pontifícia, a guerra franco-prussiana, o colapso do Segundo Império francês, a anexação da Alsácia-Lorena e a consolidação de uma República progressivamente mais secularizante.

Freppel não era um bispo neutro diante dessas disputas. Sua orientação pode ser situada historicamente no campo ultramontano, isto é, na corrente que acentuava a autoridade pontifícia e a unidade romana contra tendências galicanas e nacional-eclesiásticas. Fontes biográficas o apresentam como apoiador firme da infalibilidade pontifícia no contexto do Vaticano I.

É importante fazer aqui uma precisão terminológica: chamá-lo simplesmente de “tradicionalista” pode ser útil em linguagem corrente, mas é historicamente impreciso caso se transfira para o século XIX o significado adquirido pelo termo depois do Concílio Vaticano II. Mais rigorosamente, Freppel foi um católico ultramontano, doutrinariamente combativo, antiliberal em matérias fundamentais, adversário da secularização e politicamente ligado à direita e ao campo monárquico. Ao mesmo tempo, suas posições econômicas e sociais não cabem perfeitamente numa caricatura simplista de “reacionário”. Estudos sobre seu pensamento social mostram uma figura mais complexa.

5. Bispo de Angers em meio à catástrofe francesa

A guerra franco-prussiana de 1870–1871 atingiu Freppel pessoalmente. Sua Alsácia natal foi incorporada ao Império Alemão, e ele protestou contra a anexação. A biografia parlamentar francesa registra que, durante a guerra, organizou socorros e ambulâncias e se pronunciou contra a anexação de sua pátria alsaciana, optando pela França.

Essa experiência ajuda a compreender seu intenso patriotismo. Freppel não via a Igreja como uma realidade desligada das sociedades históricas. A França, para ele, possuía uma missão, uma memória e uma civilização profundamente vinculadas ao cristianismo. A descristianização nacional não era apenas uma modificação administrativa; representava a mutilação da própria identidade histórica francesa.

Tal preocupação explica por que sua ação episcopal ultrapassou os limites da gestão diocesana. Ele se transformou em uma personalidade nacional. 

6. A fundação da Universidade Católica do Oeste

Estátua de Charles-Émile Freppel em frente à Saints-Pierre-et-Paul-Church em Obernai , França


Uma de suas realizações mais duradouras foi a fundação, em 1875, da instituição que se tornaria a Université Catholique de l’Ouest, em Angers. A própria universidade reconhece Freppel como seu fundador; a história oficial da diocese de Angers afirma que ele criou a universidade católica para formar quadros da sociedade e da Igreja do Oeste francês.

Esse ato deve ser interpretado dentro da batalha pela inteligência e pela educação.

Freppel compreendera que não bastava publicar condenações contra os erros modernos. Era necessário:

  • formar professores;
  • formar juristas;
  • formar intelectuais;
  • formar dirigentes;
  • criar instituições;
  • disputar a interpretação da história;
  • impedir que o monopólio cultural do Estado secular formasse sozinho as novas gerações.

Um estudo sobre seu pensamento econômico recorda que, aproveitando a legislação de 1875 relativa à liberdade do ensino superior, Freppel criou a universidade católica em Angers e nela promoveu inclusive uma Faculdade de Direito e ensino de economia política.

7. O bispo entra no Parlamento

Em 1880, Freppel foi eleito deputado pelo Finistère, iniciando uma carreira parlamentar que conservaria até sua morte. Os registros oficiais da Assembleia Nacional mostram quatro períodos sucessivos de mandato entre 1880 e 1891, sempre vinculado à Union des Droites.

Sua presença parlamentar foi extraordinariamente ativa. Ele interveio nos debates sobre:

  • ensino;
  • congregações religiosas;
  • propriedade e tributação;
  • liberdade de imprensa;
  • legislação familiar;
  • questões militares;
  • política nacional;
  • interesses da Igreja.

A biografia da Assembleia Nacional registra a intensidade de sua atividade e menciona que, somente entre 1883 e 1889, um biógrafo contou 120 discursos pronunciados na tribuna.

Freppel combateu especialmente a crescente secularização republicana do ensino. Opôs-se a medidas que julgava atentatórias à liberdade da Igreja e das congregações, criticou aspectos da instrução estatal obrigatória e posicionou-se contra políticas que, em sua avaliação, aumentavam o domínio ideológico do Estado sobre a formação das crianças.

Ele também se opôs ao restabelecimento do divórcio e tomou parte em várias das grandes controvérsias políticas da Terceira República.

Portanto, não era o modelo de bispo confinado à sacristia por uma concepção privatizada da fé. Freppel julgava que as questões políticas podiam envolver diretamente:

  • a lei natural;
  • a família;
  • a educação;
  • os direitos da Igreja;
  • a ordem social;
  • o destino religioso da nação.

Sua própria trajetória é uma negação prática da tese segundo a qual a religião deve ser reduzida à consciência individual.

8. Monarquista, mas não um simples partidário

Freppel estava politicamente situado à direita. Os registros oficiais o colocam na Union des Droites, e estudos de seu pensamento mencionam suas convicções monárquicas.

Mas seria empobrecedor descrevê-lo como mero agente eleitoral de uma facção. Sua política derivava de uma visão de ordem. Ele desconfiava profundamente da República quando esta se apresentava como veículo da herança ideológica revolucionária, da secularização, da hostilidade às congregações e da monopolização estatal da educação.

Ao mesmo tempo, pesquisas sobre suas posições econômicas e sociais mostram que Freppel não cabe perfeitamente numa fórmula política simplista. Jean-Yves Naudet destaca sua participação na reflexão econômica e social católica anterior à Rerum novarum e sua atuação na chamada “escola de Angers”; o mesmo estudo observa sua defesa de soluções não estatistas para a questão social e sua liberdade ocasional diante dos alinhamentos partidários.

Esse ponto merece atenção. Freppel foi: contrarrevolucionário em princípios fundamentaismonárquico em convicção políticaultramontano em eclesiologiapatrístico em parte essencial de sua formação,mas intelectualmente mais complexo do que a caricatura de um simples nostálgico do Antigo Regime.

9. O grande combate contra 1789

É, porém, no centenário da Revolução Francesa que sua personalidade aparece com máxima nitidez.

Em 1889, quando a República celebrava os cem anos de 1789, Freppel publicou: La Révolution française à propos du centenaire de 1789.

A edição de 1889 está bibliograficamente documentada; um exemplar digitalizado registra uma edição de 155 páginas publicada em Paris por A. Roger et F. Chernoviz.

O significado do livro é enorme.

Freppel recusava a apresentação da Revolução como simples advento luminoso da liberdade. Para ele, era necessário examinar seus princípios, suas consequências religiosas e sua ação sobre a estrutura da sociedade. Sua crítica atingia especialmente a ruptura entre a ordem política e o cristianismo.

O historiador Jean-Clément Martin mostrou que a intervenção de Freppel no centenário revolucionário teve enorme peso nos conflitos de memória no Oeste francês e que a personalidade do bispo estava no centro das disputas em Maine-et-Loire.

Freppel não examinava 1789 somente como uma sequência de acontecimentos:

Estados Gerais → Bastilha → Terror → Diretório.

Seu interesse estava no espírito da Revolução e nos princípios capazes de sobreviver às instituições imediatamente revolucionárias, ou seja, a Revolução poderia continuar mesmo quando as guilhotinas desaparecessem.

Poderia continuar:

  • na escola;
  • no direito;
  • na concepção de soberania;
  • na família;
  • na laicização;
  • na cultura;
  • na hostilidade à autoridade espiritual;
  • na reconstrução da sociedade sem referência objetiva à ordem cristã.

É precisamente essa forma de análise que permite estabelecer, com grande fecundidade intelectual, uma ponte entre Freppel e a frase posteriormente atribuída ao cardeal Suenens sobre o Vaticano II como uma espécie de “1789 na Igreja”, palavras do Cardeal Suenens. Não porque Freppel pudesse prever o Concílio Vaticano II, evidentemente, mas porque sua maneira de analisar uma revolução como transposição de princípios fornece uma chave metodológica muito poderosa.

10. Um pensador da questão social

Há ainda outro Freppel que não deve ser esquecido: o estudioso das questões econômicas e sociais.

Um artigo acadêmico de Jean-Yves Naudet destaca sua importância nas reflexões anteriores à publicação da Rerum novarum, de Leão XIII, em 1891. Freppel participou de debates sobre trabalho, intervenção estatal, propriedade, economia e organização social, sendo associado à chamada escola de Angers.

Isso é importante porque impede uma interpretação superficial de sua crítica à Revolução.

Freppel não pensava simplesmente: “antes de 1789 tudo era perfeito; depois de 1789 tudo foi corrupção”.

Sua produção mostra preocupação concreta com a questão social moderna. O problema, para ele, era encontrar respostas que não entregassem a sociedade nem ao individualismo dissolvente nem ao socialismo estatizante. Um estudo moderno caracteriza sua posição econômica como favorável ao mercado e a uma intervenção estatal limitada, sem negar sua atenção real à questão social.

Isso ajuda também a compreender por que o pensamento contrarrevolucionário católico não pode ser reduzido a mero imobilismo.

11. Temperamento e símbolo episcopal

A tradição biográfica associa Freppel à imagem da abelha e à divisa latina: Sponte favos, aegre spicula. Em tradução aproximada: “De bom grado o mel; a contragosto, o ferrão.” A biografia parlamentar registra a abelha em suas armas e sua divisa, imagem particularmente adequada ao seu temperamento.

Era um homem capaz de construir e combater.

O “mel”:

  • o ensino;
  • a universidade;
  • a formação intelectual;
  • a pregação;
  • as obras pastorais;
  • o estudo dos Padres.

O “ferrão”:

  • a polêmica contra Renan;
  • a resistência à secularização;
  • a defesa da Igreja;
  • a batalha parlamentar;
  • a crítica da Revolução.

Talvez poucas divisas expressem tão bem uma existência.

12. Morte e legado

Charles-Émile Freppel morreu em Angers, em 22 de dezembro de 1891, aos 64 anos. Até sua morte permaneceu simultaneamente bispo de Angers e deputado do Finistère.

Seu legado sobrevive em vários campos.

Como teólogo, deixou uma vasta produção patrística e apologética.

Como professor, representou uma época na qual a teologia católica ainda disputava publicamente as grandes questões intelectuais.

Como apologista, enfrentou diretamente o racionalismo de Renan.

Como homem de Roma, participou do ambiente do Vaticano I e da afirmação ultramontana do primado pontifício.

Como bispo, transformou Angers num centro de resistência intelectual e construção institucional católica.

Como fundador universitário, compreendeu que a fé precisava de escolas superiores próprias.

Como deputado, recusou a privatização completa da religião.

Como crítico da Revolução, tornou-se uma das referências episcopais mais importantes para uma interpretação católica e contrarrevolucionária de 1789.

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