Léon-Joseph Suenens: biografia e legado

Léon-Joseph Suenens — também conhecido, em forma neerlandesa, como Leo Jozef Suenens — nasceu em 16 de julho de 1904, em Ixelles/Elsene, na região de Bruxelas, e morreu em 6 de maio de 1996, também em Bruxelas. Arcebispo de Malinas-Bruxelas e cardeal da Igreja Católica, foi uma das personalidades eclesiásticas mais influentes do século XX e, sobretudo, uma das figuras decisivas do Concílio Vaticano II e da reorganização pastoral que se seguiu ao Concílio.

Sua importância histórica é difícil de exagerar. Suenens não foi simplesmente um bispo que “apoiou” as reformas conciliares. Participou da própria definição dos grandes eixos do Vaticano II, tornou-se um de seus quatro moderadores e atuou como representante eminente da corrente reformadora do episcopado europeu. Mais tarde, seria também protagonista da defesa da colegialidade episcopal, da chamada corresponsabilidade eclesial, do ecumenismo e da Renovação Carismática Católica.

Por isso, sua biografia é quase inseparável da história da grande transformação da Igreja Católica na segunda metade do século XX.

Infância, vocação e formação romana

Suenens nasceu numa Bélgica culturalmente complexa, dividida entre os mundos flamengo e francófono. Sua própria educação refletiu essa realidade: fez estudos primários em neerlandês e recebeu formação humanística greco-latina em francês. Entre 1921 e 1928, estudou filosofia, teologia e direito canônico em Roma, na Pontifícia Universidade Gregoriana, com uma interrupção causada pelo serviço militar.

Foi ordenado sacerdote em 1927, para a arquidiocese de Malinas. Sua formação romana foi particularmente importante. Suenens pertencia a uma geração de clérigos intelectualmente preparados para pensar a Igreja para além dos limites estritamente locais. Conhecia a teologia, o direito canônico e a filosofia, mas demonstraria progressivamente uma preocupação crescente com a organização do apostolado, com o papel dos leigos, com a vida religiosa ativa e com as formas de presença da Igreja no mundo contemporâneo.

De volta à Bélgica, dedicou-se ao ensino de filosofia, primeiro no seminário menor e depois no seminário maior de Malinas. A carreira acadêmica e formativa precedeu sua ascensão episcopal e ajuda a explicar um dos traços permanentes de sua personalidade: Suenens era antes de tudo um organizador de ideias, um homem capaz de reduzir debates complexos a grandes esquemas pastorais e estratégicos.

A Universidade Católica de Louvain e os anos da guerra

Em 1940, Suenens tornou-se vice-reitor da Universidade Católica de Louvain. A instituição atravessava os anos dramáticos da ocupação alemã. Segundo a historiografia belga consultada, sua nomeação ocorreu no contexto em que o reitor Honoré Van Waeyenbergh enfrentava a repressão do ocupante após se recusar a fornecer listas de estudantes destinadas ao trabalho compulsório na Alemanha.

Essa etapa é importante porque mostra que Suenens não surgiu subitamente nos anos 1960 como um simples “ideólogo conciliar”. Antes disso, já possuía experiência de governo, administração universitária, formação clerical e contato com problemas concretos da sociedade belga.

Em 1945, foi elevado ao episcopado como bispo auxiliar de Malinas e tornou-se também vigário-geral. Começava então uma nova fase de sua vida, marcada pela aproximação entre reflexão teológica, organização pastoral e governo eclesiástico.

Apostolado leigo, missão e renovação pastoral

Ainda antes do Vaticano II, Suenens demonstrou forte interesse pelo apostolado leigo. Em 1946, participou da implantação da Legião de Maria na Bélgica. Escreveu sobre missão, vida religiosa, espiritualidade mariana e apostolado. Esse dado é essencial para compreender sua evolução: sua futura atuação conciliar não surgiu do nada, mas de uma visão pastoral desenvolvida durante décadas.

Entre seus livros anteriores ou próximos ao Concílio encontram-se obras sobre a Legião de Maria, a evangelização, Nossa Senhora, a vida religiosa feminina e a vida cristã. A bibliografia registrada em referências enciclopédicas inclui títulos como Theology of the Legion of Mary, The Gospel to Every Creature, Mary, the Mother of God, The Nun in the World e Christian Life Day by Day.

Essa primeira fase de Suenens revela algo que frequentemente desaparece nas caricaturas posteriores. Ele não era um secularista indiferente à vida sobrenatural. Sua trajetória possuía forte componente mariano, missionário e espiritual. O verdadeiro debate histórico está em como ele concebia a renovação das estruturas, da linguagem e da ação da Igreja.

Arcebispo de Malinas-Bruxelas e cardeal

Em 1961, Suenens sucedeu o cardeal Jozef-Ernest Van Roey como arcebispo. No ano seguinte, João XXIII criou-o cardeal. Na Bélgica, seu governo coincidiu com profundas mudanças sociais, linguísticas e políticas. Ele participou da reorganização territorial e pastoral da arquidiocese, enquanto a Bélgica avançava para uma crise cada vez mais intensa de sua antiga estrutura unitária.

Sua elevação ocorreu exatamente às vésperas do Vaticano II. E foi aí que Suenens entrou definitivamente na história universal da Igreja.

O homem que ajudou a redefinir a Igreja Conciliar (o Vaticano II)

A importância de Suenens no Concílio não pode ser reduzida à simples participação em debates. Fontes enciclopédicas registram que ele apresentou a João XXIII um esquema dos grandes temas que, em sua opinião, deveriam organizar os trabalhos conciliares. Esse plano recebeu apoio e exerceu influência decisiva na evolução posterior do Concílio. Entre os cardeais que acolheram favoravelmente essa orientação estava Giovanni Battista Montini, futuro Papa Paulo VI.

Esse ponto é fundamental.

O Concílio havia recebido uma enorme quantidade de esquemas preparatórios. A questão não era apenas discutir textos isolados, mas descobrir qual seria a arquitetura intelectual e pastoral do grande acontecimento. Suenens contribuiu para deslocar o centro de gravidade do Concílio em direção a uma reflexão mais ampla sobre: a Igreja em si mesma e a Igreja em relação ao mundo.

Essa concepção ajudou a organizar o horizonte do Concílio e encontra correspondências evidentes nos grandes desenvolvimentos eclesiológicos e pastorais que culminariam, entre outros textos, em Lumen gentium e Gaudium et spes. A própria bibliografia de referência considera seu plano decisivamente influente para os trabalhos conciliares.

Após a eleição de Paulo VI, Suenens tornou-se um dos quatro moderadores do Concílio, ao lado dos cardeais Gregorio Pietro Agagianian, Julius Döpfner e Giacomo Lercaro. A função lhe conferia posição central na condução dos trabalhos.

Portanto, é historicamente mais correto dizer: Suenens não foi apenas um intérprete do Vaticano II. Foi um dos homens que ajudaram a determinar sua direção.

O representante de uma nova corrente eclesial

Durante o Concílio, Suenens tornou-se uma das vozes mais importantes da corrente reformadora. A historiografia flamenga o descreve explicitamente como importante porta-voz da tendência progressista na Igreja durante o Vaticano II.

Entre as questões por ele promovidas ou enfatizadas encontravam-se o restabelecimento do diaconato permanente, a ideia de um limite etário para o exercício episcopal e uma valorização mais explícita dos carismas concedidos também aos leigos.

Por trás dessas propostas havia uma determinada concepção de Igreja. Suenens queria superar um modelo excessivamente concentrado na administração central e enfatizar:

  • a colegialidade episcopal;
  • a responsabilidade dos bispos;
  • a participação dos leigos;
  • os carismas;
  • o diálogo ecumênico;
  • a adaptação das estruturas pastorais;
  • a relação da Igreja com o mundo moderno.

Sua obra Co-Responsibility in the Church, publicada em 1968, tornou-se uma expressão emblemática desse programa. As posições que defendeu geraram controvérsia suficientemente intensa para que tivesse de responder publicamente a críticas de altos eclesiásticos e reafirmar sua lealdade à Santa Sé.

O pós-Concílio e as tensões com Roma

É justamente depois do Concílio que a figura de Suenens se torna mais complexa.

Para seus admiradores, ele aparecia como guardião do verdadeiro impulso do Vaticano II: um homem que desejava impedir que as reformas fossem neutralizadas. Para seus críticos, tornava-se um dos principais representantes de uma interpretação progressista que pressionava continuamente por novas transformações.

Essa tensão não é uma reconstrução artificial posterior. Suas próprias intervenções demonstram que ele continuou a propor reformas institucionais. No Sínodo dos Bispos de 1971, por exemplo, defendeu que se considerasse, em determinadas regiões afetadas pela falta de sacerdotes celibatários, a possibilidade da ordenação de homens casados.

Também se destacou pela insistência na colegialidade e na corresponsabilidade. O problema central, para Suenens, não era simplesmente mudar uma ou outra norma: tratava-se de alterar o modo de funcionamento da autoridade eclesiástica, fortalecendo processos de consulta, participação e ação conjunta.

É nesse ponto que sua figura se torna indispensável para compreender uma das grandes tensões do catolicismo contemporâneo: a passagem de um modelo fortemente hierárquico e centralizado para propostas de governo mais colegiais, sinodais e participativas.

Matrimônio, regulação da natalidade e uma controvérsia delicada

Suenens também entrou em debates extremamente sensíveis sobre casamento, moral conjugal e regulação da natalidade. Durante o período conciliar, manifestou preocupação com a necessidade de considerar os desenvolvimentos científicos e pastorais ao tratar dessas questões. Seu nome ficou associado à advertência de que a Igreja deveria evitar uma nova situação comparável, em sua interpretação, ao “caso Galileu”.

Aqui é necessário evitar simplificações. Não é historicamente rigoroso transformar toda a posição de Suenens numa frase caricatural, como se ele simplesmente tivesse abandonado a doutrina católica. Ao mesmo tempo, seria igualmente incorreto esconder que ele representava uma linha substancialmente diferente daquela que encontraria expressão definitiva na reafirmação doutrinal de Paulo VI em Humanae vitae, publicada em 1968. A encíclica reafirmou a doutrina católica sobre a ilicitude dos meios contraceptivos artificiais.

A controvérsia é reveladora porque expõe um problema maior: até onde poderia ir o aggiornamento? Qual era a relação entre desenvolvimento pastoral, progresso científico, consciência, tradição doutrinal e autoridade pontifícia?

Suenens estava no centro dessas perguntas.

A crise de Louvain e o declínio da autoridade católica na Bélgica

Sua atuação como primaz belga também foi marcada pela explosiva questão linguística de Louvain/Leuven. Em 1966, um mandato episcopal em defesa da permanência da seção francófona da universidade em Leuven tornou-se, involuntariamente, catalisador de uma gigantesca crise.

Segundo a Encyclopedie van de Vlaamse beweging, o episódio contribuiu para intensificar:

  • a revolta estudantil;
  • o conflito entre flamengos e francófonos;
  • a perda de autoridade pública do episcopado;
  • o crescimento do anticlericalismo;
  • a fragmentação dos partidos políticos segundo linhas linguísticas;
  • a transformação progressiva da Bélgica unitária.

É uma ironia histórica notável. O cardeal associado internacionalmente à crítica do autoritarismo e à defesa da participação acabou envolvido, na Bélgica, numa crise em que um documento episcopal foi percebido por muitos flamengos precisamente como expressão de autoritarismo clerical. A fonte historiográfica flamenga chega a considerar esse episódio crucial para a erosão da autoridade eclesial no país.

A Renovação Carismática Católica

Na década de 1970, Suenens iniciou aquela que talvez seja a segunda grande fase de sua influência internacional.

Por intermédio de Veronica O’Brien, tomou conhecimento da nascente Renovação Carismática Católica e foi incentivado a observar pessoalmente o fenômeno nos Estados Unidos. Posteriormente, tornou-se um de seus mais importantes protetores e orientadores no interior da hierarquia católica.

A importância dessa atuação é confirmada por uma fonte particularmente significativa: em discurso de 2015, o Papa Francisco recordou Suenens como o grande defensor da Renovação Carismática e afirmou que ele foi figura-chave para conservá-la dentro da Igreja. O mesmo discurso recorda o agradecimento dirigido por Paulo VI a Suenens, em 1975, por sua contribuição para introduzir a Renovação no coração da vida eclesial.

Suenens não considerava a Renovação simplesmente uma organização entre outras. Via nela uma espécie de corrente espiritual destinada, em sua perspectiva, a (re)fecundar toda a Igreja. Essa visão marcou profundamente a autocompreensão posterior do movimento.

Publicou obras ligadas ao tema, entre elas:

  • A New Pentecost?
  • Ecumenism and Charismatic Renewal
  • Charismatic Renewal and Social Action
  • Renewal and the Powers of Darkness.

A bibliografia mostra também uma característica importante: para Suenens, a Renovação Carismática não deveria permanecer isolada da preocupação ecumênica nem da ação social.

Ecumenismo

O ecumenismo constituiu outro eixo permanente de sua atuação. Seus contatos com observadores não católicos durante o Vaticano II contribuíram para aprofundar seu envolvimento pessoal no diálogo com outros cristãos. Depois do Concílio, tornou-se figura internacionalmente conhecida em círculos ecumênicos, sobretudo no mundo anglófono.

Aqui também aparece um traço característico de seu pensamento: Suenens acreditava que a renovação espiritual poderia criar condições para a aproximação entre cristãos separados. Na sua visão, a experiência do Espírito Santo e dos carismas poderia funcionar como ponte para relações ecumênicas mais profundas.

Para uma avaliação católica tradicional, esse aspecto exige exame particularmente cuidadoso, porque a aproximação entre práticas carismáticas católicas e ambientes pentecostais ou protestantes levanta questões sérias sobre identidade confessional, doutrina sacramental, eclesiologia e os limites do ecumenismo. Historicamente, porém, é impossível compreender a expansão da Renovação Carismática no interior do catolicismo sem reconhecer a ação protetora de Suenens.

Últimos anos

Suenens renunciou ao governo da arquidiocese em 1979. Mesmo após a aposentadoria, continuou ativo, especialmente na promoção da Renovação Carismática e em trabalhos de reflexão e memória. Sua produção tardia incluiu livros autobiográficos e obras relacionadas à espiritualidade e à vida eclesial.

Morreu em Bruxelas em 6 de maio de 1996, aos 91 anos.

Um balanço histórico

O cardeal Suenens permanece uma figura que resiste a classificações simplistas.

Ele pode ser descrito adequadamente como “modernista”, tanto na precisão histórica quanto teológica. É também considerado como um reformador revolucionário. Sua trajetória foi muito mais profunda e mais problemática.

O nome de Suenens aparece na célebre lista de altos eclesiásticos supostamente ligados à Maçonaria, popularmente conhecida como “Lista Pecorelli”. Em 12 de setembro de 1978, o jornalista italiano Carmine “Mino” Pecorelli publicou em seu periódico Osservatore Politico o dossiê “La Gran Loggia Vaticana” — A grande loja Vaticana, contendo cerca de 121 nomes de pessoas ligadas ao Vaticano e à hierarquia eclesiástica apresentadas como supostos maçons. Suenens figurava entre elas.

Era um homem de sólida formação intelectual, já profundamente situada no ambiente de transformação do pensamento católico moderno: formado em Roma, professor de filosofia e conhecedor da tradição escolástica, não permaneceu, contudo, encerrado no tomismo clássico, abrindo-se desde cedo às controvérsias sobre a filosofia cristã, à fenomenologia moral, ao personalismo e às novas categorias de consciência, experiência, relação e historicidade. Sacerdote intelectual, bispo, mariano, promotor do apostolado leigo e escritor espiritual, Suenens tornou-se precisamente por essa formação híbrida — católica na linguagem e na estrutura institucional, mas progressivamente permeada pelas correntes modernas de renovação filosófica e pastoral — um dos maiores estrategistas da transformação conciliar. Defendeu a corrente progressista, promoveu novas formas de corresponsabilidade e colegialidade, combateu modelos centralizadores de autoridade, interveio nos debates sobre moral conjugal e disciplina eclesiástica, favoreceu o ecumenismo e tornou-se o principal protetor hierárquico da Renovação Carismática. Em sua trajetória, pode-se observar a passagem de uma inteligência católica ainda formalmente vinculada à tradição para uma nova matriz personalista, experiencial, dialógica e historicizante, que encontraria no Vaticano II e no pós-Concílio um vasto campo de realização.

Suenens é protagonista da passagem entre dois mundos católicos. Ele foi formado na Igreja anterior ao Concílio, sob estruturas, disciplinas e categorias herdadas do catolicismo romano dos séculos XIX e XX. Mas empregou a autoridade, a formação e a posição recebidas desse mundo para contribuir decisivamente para o surgimento de outro modelo eclesial.

Por isso, sua biografia não é apenas a história de um cardeal belga. É a história de uma mudança de paradigma.

É a história de como, no interior da própria hierarquia, homens formados pela antiga ordem católica passaram a considerar necessária uma nova relação entre autoridade e participação, episcopado e primado, clero e laicato, Igreja e mundo moderno, catolicismo e protestantismo, instituição e carisma.

Suenens exclama: "o Vaticano II, é o 1789 na Igreja", acrescentando, "não se compreende nada da Revolução Francesa ou Russa se se ignora o antigo regime ao qual elas puseram fim.

E é justamente por isso que Léon-Joseph Suenens merece ser estudado com extrema atenção por qualquer pessoa que queira compreender não apenas o Vaticano II, mas a crise, as rupturas, as continuidades e as disputas que marcaram a Igreja Católica depois dele.

Principais obras para iniciar o estudo

Entre os títulos atribuídos a Suenens em repertórios biográficos estão Theology of the Legion of Mary, The Gospel to Every Creature, Mary, the Mother of God, The Nun in the World, Co-Responsibility in the Church, A New Pentecost?, Ecumenism and Charismatic Renewal, Charismatic Renewal and Social Action e Renewal and the Powers of Darkness.

Suenens merece um estudo muito maior do que uma biografia isolada. A figura dele pode constituir um capítulo central de uma investigação sobre a genealogia interna da Revolução na Igreja no século XX, ligando Cardeal Mercier → nouvelle théologie e movimentos de renovação → Vaticano II → colegialidade → crise da autoridade → pós-Concílio → Renovação Carismática → sinodalidade contemporânea. Essa genealogia precisaria ser construída com cuidado documental, distinguindo influência direta, afinidade intelectual e simples sucessão histórica — mas, como programa de pesquisa, é extraordinariamente fecunda.

Editorial: por que citamos a biografia do cardeal Suenens?

Em determinado momento de nosso jornal, citamos a célebre frase atribuída ao cardeal Léon-Joseph Suenens: “O Vaticano II é o 1789 na Igreja.” A afirmação não pode ser lida de modo superficial, como sendo uma declaração desprovida de prudência oratória. Ela exige contexto e estudo.

Por isso, ao mencionar Suenens, não nos interessa apenas registrar um nome ou uma frase. Interessa-nos compreender o homem, sua formação, suas influências, sua atuação conciliar e o papel que desempenhou na transformação da vida eclesiástica do século XX. Conhecer a raiz biográfica dos agentes de uma mudança é parte indispensável para compreender os objetivos, os métodos e os frutos do modernismo.

No contexto do livro Carta aberta aos católicos perplexos, recorda-se com precisão: “Não se compreende nada da Revolução Francesa ou Russa se se ignora o antigo regime ao qual elas puseram fim… Igualmente em matéria eclesiástica, uma reação não se julga senão em função do estado de coisas que a precedem.”

Assim, estudar Suenens não é um exercício de curiosidade histórica. É um esforço de inteligência católica. Para compreender a crise presente, é necessário conhecer não somente os acontecimentos, mas também os homens, as ideias e as correntes que instaurararam uma nova mentalidade na Igreja.