Uma casa católica não se define apenas pelas imagens que conserva, pelos crucifixos que pendura ou pelos terços que guarda.

Tudo isso tem exímio valor.

A imagem do Sagrado Coração, a estampa de Nossa Senhora no quarto, o crucifixo sobre a porta e a água benta junto à entrada recordam que aquela casa pertence a Deus.

Mas São João Maria Vianney ensina algo ainda mais exigente: a fé no lar não se mede somente pelos sinais religiosos visíveis, mas pela ordem sobrenatural que governa a vida da família.

Uma casa torna-se verdadeiramente católica quando nela se aprende a rezar, a obedecer, a trabalhar, a guardar o pudor, a vigiar a língua, a respeitar o próximo, a cumprir os deveres e a desejar, acima de tudo, a salvação das almas.

Os sacramentais apontam sempre para a mesma direção. Os costumes cotidianos mostram se a família realmente caminha por ela.

A primeira preocupação de uma família católica

Para o Cura d'Ars, os deveres dos pais começam antes mesmo do nascimento dos filhos.

A mãe católica, ao saber que traz uma criança no ventre, não deve pensar somente nas necessidades materiais do nascimento, nas roupas, no quarto ou nos cuidados corporais.

Deve pensar também na alma que Deus lhe confiou.

Deve rezar.

Deve pedir a proteção da Santíssima Virgem.

Deve , se possível, mandar celebrar uma Santa Missa.

Deve desejar que aquela criança receba o santo Batismo, cresça na graça e um dia ofereça a própria vida a Jesus Cristo, como oblação.

Este pensamento revela o verdadeiro espírito de uma casa católica: os filhos não pertencem inteiramente aos pais; foram confiados a eles por Deus para que sejam conduzidos ao Céu.

A maior alegria de um pai e de uma mãe não deveria ser apenas ver o filho bem colocado no mundo, respeitado, instruído ou materialmente próspero.

Deveria ser poder dizer:

“Se Deus me concedesse a graça de ver esta criança tornar-se santa e cantar eternamente os seus louvores, que felicidade seria a minha!”

A família católica começa a ordenar-se quando aprende a julgar todas as coisas à luz da eternidade.

Os pais responderão pelas almas dos filhos

São João Maria Vianney fala com grande severidade sobre a responsabilidade dos pais.

Ele não considera a educação religiosa como uma tarefa secundária nem como algo que possa ser inteiramente entregue ao sacerdote, à escola ou ao catequista.

Os pais responderão diante de Deus pelas almas que lhes foram confiadas.

Essa responsabilidade não se cumpre apenas com conselhos.

Cumpre-se pela vigilância, pelo exemplo, pela correção, pela oração e pela organização da própria casa.

Os filhos aprendem observando.

Veem se os pais rezam ou apenas mandam rezar.

Veem se cumprem os dias santos.

Veem se respeitam o sacerdote.

Veem se trabalham com honestidade.

Veem se falam mal dos outros.

Veem se controlam a ira.

Veem se vivem com pudor.

Veem se tratam com reverência as coisas de Deus.

Uma família pode pronunciar belas palavras sobre a fé e, ao mesmo tempo, ensinar o contrário por meio de seus hábitos.

Por isso, o exemplo doméstico possui uma força quase irresistível.

Os pais não podem conduzir os filhos por um caminho que eles próprios se recusam a percorrer.

A piedade começa nos pequenos gestos

A fé entra profundamente na alma por meio de gestos repetidos.

A persignação feita com atenção.

A oração ao levantar.

A oferta do dia.

A bênção antes das refeições.

A ação de graças depois de comer.

As três Ave-Marias antes de dormir.

O Ângelus, quando possível.

O Santo Rosário rezado em família.

A lembrança dos mortos.

A leitura de uma vida de santo.

A bênção pedida aos pais.

A água benta usada com fé.

Esses gestos não são acessórios.

São a estrutura invisível da casa católica.

A criança que aprende a fazer corretamente o sinal da Cruz aprende também que o corpo pertence a Deus.

A criança que escuta o santo Nome pronunciado com respeito aprende que há palavras que não devem ser usadas levianamente.

A criança que vê os pais ajoelharem-se aprende que existe uma autoridade acima de todas as autoridades humanas.

A piedade no lar não cresce principalmente por grandes entusiasmos.

Cresce pela constância.

É melhor uma oração breve rezada todos os dias do que um programa grandioso abandonado depois de uma semana.

Até mesmo a oração pode ser atacada pela negligência, pelas distrações, pelo desgosto e pelo tédio.

Por isso, a família deve perseverar.

Não se reza apenas quando há gosto.

Reza-se porque Deus é Deus e porque a alma necessita d'Ele.

A casa deve ensinar reverência

A modernidade confunde frequentemente intimidade com ausência de formas.

Parece imaginar que, para uma família ser afetuosa, todos devem falar de qualquer maneira, interromper-se, ironizar-se e tratar-se sem distinção alguma.

Mas a intimidade católica não destrói a reverência.

Purifica-a.

Ensinar uma criança a dizer “senhor” e “senhora”, a cumprimentar os mais velhos, a pedir licença, a agradecer, a não interromper, a ouvir antes de responder e a moderar o tom de voz não é formalismo vazio.

É educação da vontade.

É reconhecimento de que o outro possui uma dignidade que não depende da nossa disposição momentânea.

O respeito mútuo entre marido e mulher é igualmente decisivo.

Os filhos aprendem o valor do Matrimônio observando como o pai trata a mãe e como a mãe trata o pai.

Palavras humilhantes, ironias, desprezos, explosões de ira e reclamações constantes deformam a atmosfera da casa.

Uma família pode possuir muitos objetos religiosos e, ainda assim, afastar-se profundamente do espírito católico se nela o próximo é continuamente ferido.

A caridade no lar começa pela maneira de falar.

O pudor também se aprende em casa

Há o dever de conservar o pudor dentro do lar.

O pudor não é vergonha do corpo.

É o reconhecimento de que o corpo humano não deve ser tratado com vulgaridade, exibido sem necessidade ou colocado em situações que favoreçam maus olhares e pensamentos.

A criança aprende o pudor pela forma como os pais a vestem, cuidam dela e organizam os ambientes da casa.

Aprende pela separação conveniente dos lugares de dormir.

Aprende pela discrição.

Aprende pelo respeito à presença de Deus e dos santos Anjos.

O argumento de que “somos todos da mesma família” não elimina a necessidade de recato.

Ao contrário, a família deveria ser o primeiro lugar onde a dignidade do corpo é protegida.

Há certos modos que podem parecer pequenos ou indiferentes, mas que, repetidos continuamente, enfraquecem a delicadeza da consciência.

Um lar católico deve proteger os olhos, a imaginação e a pureza de seus membros.

Não por medo do corpo, mas por reverência à obra de Deus.

Vigiar não é desconfiar: é amar

O Cura d'Ars não admite que os pais abandonem os filhos a si mesmos e depois se surpreendam com sua desobediência.

Ele censura duramente os pais que concedem permissões imprudentes, expõem os filhos a ocasiões perigosas e, mais tarde, lamentam não possuir mais autoridade sobre eles.

Sua comparação é clara.

Não se pode lançar palha seca ao fogo e ordenar-lhe que não queime.

Da mesma forma, não se pode lançar uma criança ou um jovem em ambientes, companhias e diversões perigosas, limitando-se a dizer:

— Comporta-te bem.

— Volta cedo.

— Não faças nada de errado.

A vigilância dos pais não é tirania.

É caridade prudente.

Os pais devem conhecer as companhias dos filhos, os lugares que frequentam, os conteúdos que consomem, as conversas que mantêm e os hábitos que começam a adquirir.

Hoje, essa vigilância se estende também às telas.

Um telefone entregue sem limites pode levar para dentro do quarto tudo aquilo de que antigos pais tentavam proteger os filhos nas ruas, nas feiras ou nas más companhias.

Não basta dizer que o filho é bom.

É preciso recordar que todos somos inclinados ao mal e que até os santos vigiavam, rezavam e temiam as ocasiões de queda.

A confiança católica nunca é imprudência.

A vaidade não pode dirigir a educação

É altamente repreensível as mães que se preocupam mais com a aparência exterior dos filhos do que com sua vida espiritual.

Aquelas que verificam cuidadosamente a roupa, os cabelos, o rosto e as maneiras, mas não perguntam se a filha ou filho fez suas orações, ofereceu o dia a Deus ou guardou o coração.

Essa advertência continua atual.

Quantos pais desejam ardentemente que os filhos sejam admirados, populares, bem relacionados e bem-sucedidos, mas pouco se preocupam com sua modéstia, suas amizades, sua vida sacramental e sua fidelidade a Deus?

Não há mal em desejar que os filhos sejam limpos, bem apresentados, educados e capazes de viver em sociedade.

O perigo começa quando a aparência se torna mais importante que a virtude.

Quando a vaidade substitui o pudor.

Quando a aprovação dos outros pesa mais que o juízo de Deus.

Quando “estabelecer-se bem na vida” significa alcançar uma boa posição, ainda que à custa da alma.

Uma casa católica não educa os filhos para serem exibidos.

Educa-os para cumprirem sua vocação.

Não falar mal também é um costume católico

Há casas em que a maledicência se torna uma forma habitual de convivência.

Fala-se mal dos parentes.

Dos vizinhos.

Dos sacerdotes.

Dos professores.

Dos colegas.

Das autoridades.

Dos ausentes.

As crianças escutam e aprendem que conversar significa frequentemente julgar quem não está presente.

Depois repetem fora de casa aquilo que ouviram dentro dela.

Uma família católica deve guardar a língua.

Isso não significa negar os erros, chamar o mal de bem ou deixar de fazer uma correção necessária.

Significa NÃO transformar a fraqueza alheia em entretenimento.

Antes de falar de uma pessoa, convém perguntar:

É verdade?

É necessário?

É justo?

Tenho o direito de dizer isso?

Estou buscando corrigir um mal ou apenas diminuir alguém?

A língua pode destruir a paz de uma casa.

Pode envenenar os filhos contra parentes, professores e sacerdotes.

Pode criar uma disposição permanente de crítica, suspeita e desprezo.

A caridade também se aprende à mesa.

E, muitas vezes, aprende-se precisamente pelo mal que os pais decidiram não dizer.

O trabalho também pertence à vida espiritual

São João Maria Vianney recorda que o mal tenta infiltrar-se em todas as atividades humanas.

À mesa, pela gula.

Na recreação, pela leviandade e pelas conversas inúteis.

No trabalho, pelo interesse próprio, pela avareza, pela inveja ou pela vaidade.

Na dor, pelas queixas e murmurações.

Na prosperidade, pelo orgulho e pelo desprezo do próximo.

Por isso, um lar católico não pode separar artificialmente oração e dever.

Arrumar o quarto, cumprir horários, estudar, preparar a comida, cuidar dos idosos, trabalhar honestamente, pagar as dívidas, conservar a limpeza e concluir bem uma tarefa são atos que podem ser oferecidos a Deus.

As obrigações temporais não devem servir de desculpa para abandonar as espirituais.

Mas as práticas espirituais também não podem ser usadas como desculpa para negligenciar os deveres de estado.

O pai deve cumprir suas responsabilidades.

A mãe também.

Os filhos devem estudar, obedecer e colaborar.

Todos devem rezar.

Todos devem combater a preguiça, a reclamação e a desordem.

A santidade doméstica nasce da união entre o amor de Deus e o dever bem cumprido.

Uma casa voltada para o Céu

Uma casa católica não é uma casa sem tentações, sem cansaço, sem desentendimentos ou sem quedas.

É uma casa na qual os membros sabem a quem recorrer.

São João Maria Vianney reconhece a fraqueza humana.

Em tudo podemos encontrar ocasião de pecado.

Na mesa.

No trabalho.

Na oração.

Na recreação.

No sofrimento.

Na prosperidade.

Mas ele também recorda aquilo que deve consolar a família católica: temos um Pai infinitamente bom, que não permite combates superiores às nossas forças e que auxilia todos os que recorrem a Ele.

Por isso, uma casa católica deve ser também uma casa de recomeços.

Uma palavra impaciente deve ser seguida de um pedido de perdão.

Uma negligência, de uma correção.

Uma queda, de uma confissão.

Uma dificuldade, de uma oração.

Uma preocupação, de um ato de confiança.

Os pais não precisam parecer impecáveis diante dos filhos.

Precisam mostrar-lhes como um católico se levanta.

As pequenas coisas que constroem uma casa

Uma casa católica não se constrói apenas por grandes discursos.

Constrói-se pela repetição humilde de pequenos atos bons.

Uma mãe que reza pelo filho ainda no ventre.

Um pai que vigia sem violência e corrige sem desespero.

Uma persignação feita com atenção.

Uma oração rezada apesar do cansaço.

Um vestido escolhido com modéstia.

Uma porta fechada por prudência.

Uma companhia recusada por amor à alma.

Um “senhor” e uma “senhora” ditos com respeito.

Uma palavra maldosa que não foi pronunciada.

Um dever realizado sem murmuração.

Um filho que pede a bênção.

Um pai que pede perdão.

Uma mãe que ensina pelo exemplo.

Uma família que se ajoelha.

São coisas pequenas.

Mas são essas pequenas coisas que formam a consciência, educam a vontade, protegem a pureza e conservam a fé.

E são elas que, dia após dia, dão forma não apenas a uma casa religiosa, mas a uma verdadeira casa católica: uma casa que vive na terra com os olhos postos no Céu.