História Geral da Igreja
Tomo I - As origens cristãs
por Fernand Mourret
Professor de História no Seminário de Saint-Sulpice
Introdução
A história da Igreja, disse Pascal, deve ser propriamente chamada a história da verdade (PASCAL, Pensées [Pensamentos]).
Em seu Sermão sobre a divindade de Jesus Cristo, Bossuet desenvolveu magnificamente esse pensamento:
A verdade é uma rainha que habita em si mesma e em sua própria luz… Contudo, para o bem dos homens, ela quis reinar, e Jesus Cristo veio ao mundo para estabelecer esse império… Em meio aos furores do mundo inteiro conjurado contra ela, não mendigou nenhum socorro humano. Ela mesma suscitou defensores intrépidos e dignos de sua grandeza… Assim denomino a história da Igreja: é a história do reinado da verdade. O mundo ameaçou, e a verdade permaneceu firme; empregou artifícios sutis e adulações, e a verdade permaneceu reta. Os hereges semearam a confusão, e a verdade permaneceu pura. Os cismas dilaceraram o corpo da Igreja, e a verdade permaneceu inteira. (BOSSUET, Sermon sur la divinité de Jésus-Christ, primeiro ponto.)
A verdade de que Pascal e Bossuet falam aqui é somente a verdade religiosa; mas é ela que nos esclarece acerca de nossas origens, de nossos destinos e de nossos deveres; é ela que constitui o todo do homem.
Em certo sentido, a história dessa verdade remonta aos primeiros tempos do mundo, pois Deus, único revelador de nossas origens e de nossos destinos, falou-nos por meio de seus profetas, antes de nos falar por meio de seu Filho Jesus Cristo (Hb 1,1. “A Igreja Católica”, diz Bossuet, “reúne em si toda a autoridade dos séculos passados e as antigas tradições do gênero humano, remontando até a sua primeira origem”. (BOSSUET, Discours sur l’histoire universelle, segunda parte, cap. XXXI).
Pode-se dar o nome de Igreja ao conjunto de todos aqueles que viveram dessas revelações e até mesmo de todos aqueles que, padecendo de ignorância invencível acerca dos dogmas revelados, mas seguindo os preceitos da lei natural e estando dispostos a obedecer a Deus em todas as coisas, puderam, segundo as expressões do papa Pio IX, pela virtude da luz divina e da graça, alcançar a vida eterna (PIO IX, encíclica Quanto conficiamur moerore, de 10 de agosto de 1863, em DENZINGER-BANNWART, n. 1677).
Se entendermos por Igreja, diz Hurter, o conjunto dos chamados que acreditaram no verdadeiro Deus, a Igreja sempre existiu (HURTER, Theologiæ dogmaticæ compendium, 7ª ed., t. I, p. 209).
Sob esse ponto de vista, pôde-se considerar a Igreja como apresentando-se sucessivamente sob três formas.
A primeira, universal em princípio, mas destinada a durar somente até Jesus Cristo, é a Igreja patriarcal, isto é, o conjunto dos homens que, sem outra organização além da família, sem outro auxílio além dos restos de revelações mais ou menos alteradas e de graças das quais tinham maior ou menor consciência, conservaram a tradição da verdade religiosa.
A segunda, essencialmente local, é a Igreja mosaica, sociedade ao mesmo tempo espiritual e temporal, imposta exclusivamente ao povo judeu e dotada de uma organização especial para conservar eficazmente a verdade até Jesus Cristo.
A terceira, enfim, universal e perpétua, é a Igreja cristã propriamente dita, ou católica, sociedade espiritual organizada para abarcar todos os povos e todos os séculos, e continuamente assistida para o cumprimento infalível de sua missão (BRUGÈRE, Tableau de l’histoire et de la littérature de l’Église, t. I, p. 3-4).
Será sempre difícil, mesmo aproveitando os grandes progressos realizados nos últimos tempos no campo da história das religiões, concretizar o vasto plano de história religiosa concebido por Frédéric Ozanam, que consistia em extrair das tradições de cada povo o elemento imutável, universal e primitivo que é a verdade (OZANAM, Lettres, ed. de 1891, t. I, p. 5-6, 12 e 16-22).
O cristão sabe que restos das verdades primitivas ainda subsistem, misturados a múltiplos erros, entre os povos estranhos ao cristianismo. Sabe que esses povos possuem uma alma como os próprios povos cristãos, desejos e aspirações religiosas edificados segundo o mesmo plano e destinados ao mesmo fim.
Não se surpreende, por conseguinte, ao ver esses desejos e essas aspirações traduzirem-se em instituições e ritos análogos. Aquilo que ele próprio busca e encontra verdadeiramente nos dogmas, nos ritos e nos sacramentos cristãos, os outros povos também procuram, sem o encontrar; e esforçam-se por suprir, mediante tentativas e esforços, a grande Misericórdia que não receberam em sua plenitude (Léonce de GRANDMAISON, prefácio a Christus, manuel d’histoire des religions, Paris, 1912, p. 43-44. Esse manual e uma obra mais extensa, publicada simultaneamente, Où en est l’histoire des religions, fornecem os elementos mais completos para uma história religiosa universal).
Mas, pelo próprio fato de que a verdade religiosa se encontra fragmentada, dispersa e misturada a toda espécie de corrupções, sua história oferece dificuldades praticamente insuperáveis.
O mesmo não ocorre com a história da Igreja entendida em seu sentido mais estrito e habitual, isto é, com a história da propagação e do desenvolvimento da sociedade visível fundada por Jesus Cristo.
Essa história divide-se naturalmente em três idades, determinadas pelas três sociedades que a Igreja teve sucessivamente de penetrar com seu espírito: a idade greco-romana, a Idade Média e a idade dos tempos modernos.
Durante a idade greco-romana, de Jesus Cristo à queda do Império, a Igreja cresce através das lutas que precisa travar contra a violência e contra a heresia. O Império desaba como um molde que já se tornara demasiadamente estreito, e os bárbaros precipitam-se sobre ele para arrancar-lhe os despojos.
Durante a Idade Média, da queda do Império Romano à Reforma protestante, a Igreja trabalha para formar e, depois, unir os novos povos. Sua obra, porém, é contrariada pela resistência das paixões humanas, e ela própria se enfraquece em contato com elas. A obra da unidade europeia permanecerá inacabada e precisará ser substituída pelo sistema do equilíbrio europeu.
Durante a idade moderna, da Reforma protestante até nossos dias, a resistência manifesta-se abertamente, repele a ação da Igreja para fora da ordem temporal, ataca-a, em mais de um país, até mesmo na ordem espiritual, e eleva progressivamente sua revolta da Igreja ao Evangelho e, depois, do Evangelho a Deus.
Realizam-se úteis progressos exteriores, mas as almas esvaziam-se e agitam-se. A Igreja revigora-se, estreita suas fileiras e espera (BRUGÈRE, Tableau de l’histoire et de la littérature de l’Église, t. I, p. 3).
Foi considerando essas diferentes fases da vida da Igreja que os Padres do Concílio do Vaticano puderam ver nela — e exortar-nos a admirar nela — um testemunho irrefutável de nossa fé (CONCÍLIO VATICANO I, sessão III, cap. III, em DENZINGER-BANNWART, n. 1794).
Esse testemunho da Igreja é múltiplo: encontra-se em seus triunfos; em seus benefícios; em sua admirável adaptação à vida das sociedades que atravessou; e em sua imortal sobrevivência.
Que a Igreja tenha, no decorrer dos séculos, triunfado sobre todos os obstáculos da força, da astúcia e da inteligência, empregando meios que teriam levado qualquer outra sociedade à perdição; que tenha, ao mesmo tempo, disciplinado e enobrecido o indivíduo, a família e a sociedade: eis o que nenhum homem de boa-fé contesta atualmente, tão evidentes são os fatos que o demonstram.
“O que é admirável”, diz Pascal, “incomparável e inteiramente divino, é que essa Igreja, que sempre perdurou, sempre foi combatida. Mil vezes pareceu estar às vésperas de uma destruição universal; e todas as vezes em que se encontrou nesse estado, Deus a reergueu mediante manifestações extraordinárias de seu poder” (PASCAL, Pensées [Pensamentos]).
Conhece-se, por outro lado, a célebre página de Taine, que mostra no cristianismo, à luz da história estudada imparcialmente, o grande par de asas indispensável para elevar o homem acima de si mesmo, acima de sua vida rastejante e de seus horizontes limitados; e que mostra também como, todas as vezes em que essas asas fraquejam ou são quebradas, os costumes públicos e privados se degradam, a crueldade e a sensualidade se exibem abertamente, e a sociedade se transforma em um antro de violência e em um lugar de perdição (TAINE, Les Origines de la France contemporaine, 22ª ed., t. XI, p. 146-147).
Uma terceira característica da vida da Igreja, menos aparente à primeira vista, foi indicada mais recentemente pelo célebre professor protestante Adolf Harnack:
A Igreja Católica possui, em sua organização, uma faculdade singular de adaptar-se ao curso histórico das coisas, permanecendo sempre a antiga Igreja. (A. HARNACK, L’Essence du christianisme, p. 159-160.)
Um rápido olhar de conjunto sobre a história da Igreja demonstra a perfeita exatidão dessa observação.
Nas três idades que percorreu até nossos dias, viu-se, com efeito, a organização exterior da Igreja tornar-se flexível e passar, segundo as leis dos organismos vivos, pelas três fases sucessivas da formação, do apogeu e do declínio. Seu dogma, sua moral e sua hierarquia, entretanto, sempre saíram dessas transformações conservando suas características idênticas e com uma vitalidade rejuvenescida.
Do século I ao século VI, diante do mundo greco-romano, a Igreja Católica dirige inicialmente seu esforço de propagação às grandes capitais — Atenas, Alexandria e Roma — e às províncias romanas — Gália, África e Grã-Bretanha. É a obra de seus missionários.
Ao mesmo tempo, seus apologistas e doutores traduzem seu dogma na linguagem filosófica dos gregos, expõem sua moral e organizam sua disciplina com o auxílio das fórmulas jurídicas de Roma.
O século IV marca o apogeu dessa obra. A liberdade da Igreja é proclamada em 313 pelo Edito de Milão; o símbolo católico é definido em 325, no Concílio de Niceia; e o pensamento cristão é expresso nas obras dos Padres da Igreja: Santo Atanásio, São Basílio, Santo Ambrósio, São João Crisóstomo, Santo Agostinho e São Jerônimo.
Nos séculos V e VI, porém, o mundo romano desagrega-se sob os golpes dos bárbaros e sob a influência de sua própria corrupção. É o declínio. São Jerônimo, Santo Agostinho e São Gregório Magno são testemunhas inquietas dessa decadência e, não obstante, trabalham para preparar o futuro.
O futuro pertence aos bárbaros.
Do século V ao século XVI, uma nova sociedade forma-se, cresce e, por sua vez, decai. A organização exterior da Igreja acompanha essas diferentes fases.
Depois de se fortalecer em Roma, em seu centro, com São Leão Magno e São Gregório Magno, o cristianismo irradia-se em direção às diferentes nações por meio de seus bispos e de seus monges.
São Remígio converte os francos, Santo Agostinho de Cantuária evangeliza a Grã-Bretanha, e São Bonifácio, a Germânia.
A Igreja coroa sua obra reunindo os povos convertidos em uma vasta unidade: é o Sacro Império, inaugurado por Carlos Magno e Leão III e continuado, sob os auspícios de Gregório VII e Inocêncio III, pelos soberanos da Germânia.
A organização religiosa, social e política do século XIII marca o apogeu dessa idade. É a época das cruzadas, da cavalaria, das artes românica e gótica, das grandes universidades, das grandes ordens religiosas, de São Domingos, São Francisco de Assis, São Tomás de Aquino e São Luís. Esses nomes dizem tudo.
Mas eis que, sob a influência de múltiplas causas — do cisma grego, do Cisma do Ocidente, da Renascença e, é preciso reconhecê-lo, de demasiados abusos internos —, a sociedade da Idade Média, a Cristandade, como é chamada, desmembra-se por sua vez.
Por meio de seus papas e de seus doutores, a Igreja procura então, como fizera por ocasião da queda do Império Romano, salvaguardar o bem contido no mundo que desaba e, ao mesmo tempo, penetrar com seu espírito a nova idade que o sucederá.
É a idade dos tempos modernos.
A formação das diferentes nações europeias a partir dos destroços do Sacro Império; o alargamento das relações comerciais pela descoberta da América; a difusão mais rápida do pensamento pela invenção da imprensa; e a penetração do espírito antigo nas letras e nas artes da Europa, mediante a chegada dos sábios gregos expulsos de Constantinopla: tais são os elementos que formaram o mundo moderno.
Ele começa com uma formidável heresia, o protestantismo, que arranca da Igreja Católica grande parte da Alemanha, separa dela a Inglaterra e agita violentamente a França.
A primeira preocupação da Igreja é combater o erro.
Pela fundação de novas ordens religiosas, das quais a Companhia de Jesus é a mais ilustre; pelo Concílio de Trento; por uma nova expansão das missões estrangeiras; pela reforma de seu clero sob a ação de São Carlos Borromeu; pelas novas congregações do Oratório, de São Lázaro e de São Sulpício; e pela difusão das doutrinas da vida espiritual sob a influência de São Francisco de Sales, a Igreja dedica-se simultaneamente a combater a heresia e a cristianizar o mundo moderno.
Por um momento, na França, sob os reinados de Luís XIII e Luís XIV, com São Francisco de Sales e São Vicente de Paulo, Bossuet e Fénelon, Petau e Thomassin, pôde-se acreditar que havia chegado o apogeu dos tempos modernos.
Mas erros derivados, de maneira mais ou menos consciente, do protestantismo — o jansenismo, o galicanismo, o quietismo e o racionalismo — logo paralisam o movimento cristão e preparam o desastre da Revolução.
Em meio a catástrofes sem precedentes, a Igreja da França é sucessivamente despojada de seus antigos privilégios, de seus direitos e de seus bens; perseguida em seus ministros e em seu culto; e oficialmente substituída por uma pretensa religião nacional. O mundo inteiro é abalado por esse terrível choque.
Terão os séculos XIX e XX inaugurado uma nova idade, ou estarão apenas prolongando a decadência da idade passada? Estamos demasiadamente próximos para julgá-lo.
“O olho”, gostava de dizer Joseph de Maistre, “não vê aquilo que o toca.”
Podemos, contudo, esperar com confiança novos triunfos para a Igreja. Independentemente das promessas proporcionadas pela fé cristã, parece que o simples estudo consciencioso do passado pode inspirar ao mero historiador as mais firmes esperanças.
Desde o nascimento da Igreja, todas as formas sociais que ela encontrou em seu caminho e todas as potências que a combateram tiveram, como qualquer organismo terrestre, sua formação, seu apogeu e seu declínio.
Somente a Igreja, para retomar as expressões do protestante Harnack, pôde adaptar-se ao curso histórico das coisas, permanecendo sempre a antiga Igreja.
Por outro lado, esse mesmo curso histórico das coisas mostra-nos a Igreja Católica tendendo a representar, por si só, todo o cristianismo e até mesmo toda a religião.
Das duas confissões cristãs que puderam pretender disputar-lhe a predominância — o protestantismo e o cisma grego —, a primeira encontra-se em processo de desagregação na anarquia dogmática; a segunda parece imobilizada numa inércia que constitui o prelúdio da morte.
Quanto às religiões cuja influência ou importância numérica puderam ser contrapostas à influência e à importância numérica do cristianismo — o budismo e o islamismo —, seu primeiro contato com a crítica histórica e filosófica parece fazer desaparecer seus fundamentos apologéticos e seus dogmas essenciais.
A religião natural, exaltada pela filosofia do século XVIII, já cumpriu seu tempo; o estudo positivo da história das religiões destruiu-lhe as bases.
O catolicismo parece, portanto, mesmo aos olhos daquele que se mantém unicamente no terreno da história, permanecer sozinho diante de um agnosticismo absoluto, fonte de um anarquismo radical.
Qual dos dois triunfará?
O futuro ensinará àqueles que vierem depois de nós se a luta que se prepara é realmente mais grave do que as que a precederam; se deverá constituir, para o cristianismo, a ocasião de um triunfo mais esplêndido ou o início do cumprimento das profecias relativas ao fim de todas as coisas.
Essa incerteza, porém, não poderia abalar a confiança do cristão fiel.
Quaisquer que sejam as vicissitudes de seu futuro, a Igreja encontra em seu passado provas suficientes de sua origem divina.
Mesmo fazendo abstração da força inicial, isto é, da pessoa de seu Fundador, e considerando na história eclesiástica apenas aquilo que começa com os Apóstolos, somos levados a reconhecer que eles fundaram uma instituição mais do que humana; que Deus estava verdadeiramente neles; e que continua ainda hoje com sua obra, sustentando-a com sua mão poderosa e conduzindo-a aos seus gloriosos destinos (DUCHESNE, Les Origines chrétiennes, 2ª ed., p. 467-468).
Nota bibliográfica
Sobre os principais documentos e obras a consultarI - Documentos
I
O primeiro documento a consultar é o livro dos Atos dos Apóstolos, redigido — ou, ao menos, concluído — em Roma, segundo a opinião geral, no ano 64, por São Lucas.
Os Atos narram a história das origens e da difusão da Igreja, primeiramente entre os judeus e, depois, entre os pagãos, durante os trinta anos que se seguiram à morte de Jesus Cristo. O papel de São Pedro é preponderante na primeira parte, capítulos I a IX, e o de São Paulo, na segunda, capítulos X a XXVIII. (Sobre o valor histórico dos Atos dos Apóstolos, à luz dos trabalhos críticos mais recentes, ver F. PRAT, “Les Sources des actes des apôtres”, em Recherches de science religieuse, maio-junho de 1913, p. 275-296.)
Os atos apócrifos de São João, Santo André, São Tomé, São Filipe, Pedro e Paulo, Paulo e Tecla somente devem ser utilizados na história com muitas precauções.
As tradições que relatam encontram-se misturadas a ficções, em sua maioria romanescas e pueris, por meio das quais se exprimiram determinadas tendências, quer morais, quer dogmáticas, do cristianismo popular.
Alguns deles fornecem informações muito interessantes sobre as primeiras heresias, sobretudo acerca do docetismo e do encratismo.
A liturgia pode extrair muito desses textos apócrifos, que nos conservaram diversos modelos de orações arcaicas e a descrição de vários ritos, a maior parte deles marcados pelo gnosticismo.
Foram publicados por LIPSIUS e BONNET sob o título Acta apostolorum apocrypha, Leipzig, 1891-1898.
II
Costuma-se designar pelo nome de Padres Apostólicos os escritores eclesiásticos que viveram no círculo dos Apóstolos ou que foram seus discípulos.
As obras que possuímos desses escritores têm valor inestimável para a história da Igreja primitiva. A edição mais cômoda e melhor é a de FUNK, Patres apostolici, 2 volumes, Tubinga, 1901.
Os principais Padres Apostólicos são: o autor da Didaqué, o autor da Epístola de Barnabé, São Clemente de Roma, Santo Inácio de Antioquia, São Policarpo, Hermas, Pápias e o autor da Epístola a Diogneto.
A Didaqué, ou Doutrina dos Doze Apóstolos, descoberta em 1873 e publicada pela primeira vez em 1883, fornece informações preciosíssimas sobre a organização e a liturgia do cristianismo primitivo. Sua composição é geralmente situada no final do século I.
A Epístola de Barnabé, composta por volta da mesma época, segundo Funk e Bardenhewer, ou cerca de trinta anos mais tarde, segundo Harnack, contém duas partes.
A primeira é dogmática: nela, o autor estuda as relações da Lei Nova com a Antiga Lei.
A segunda é moral: nela, procura caracterizar os dois caminhos que os homens seguem neste mundo, o caminho da luz e o caminho das trevas. O primeiro é o caminho dos preceitos e dos conselhos evangélicos; o segundo é o caminho da idolatria.
A única carta autêntica que possuímos de São Clemente de Roma é sua Epístola à comunidade de Corinto. Ela é anterior à morte de Domiciano e, portanto, ao ano 96.
Sua importância é capital para a história da hierarquia eclesiástica.
Os outros escritos atribuídos a São Clemente, principalmente o livro das Recognitiones e as Epístolas Clementinas, obras de hereges judaizantes, informam-nos sobre as ideias e tendências desses hereges.
As sete cartas de Santo Inácio de Antioquia, martirizado em Roma no ano 107, exprimem os mais nobres sentimentos que podem animar um mártir no momento de sofrer o suplício derradeiro.
Elas contêm afirmações dignas de nota acerca da realidade da Encarnação, da Eucaristia, da unidade da Igreja, do caráter monárquico do episcopado e do primado da Igreja Romana.
De São Policarpo, possuímos apenas uma breve Carta aos Filipenses; possuímos também, entretanto, a narrativa de seu martírio.
O volumoso escrito publicado em meados do século II sob o título de Pastor tem provavelmente por autor um irmão do papa Pio I, chamado Hermas.
O objetivo direto desse escrito é expor a doutrina cristã sobre a Penitência; mas ele também oferece explicações do mais elevado interesse sobre as demais partes da moral e sobre o dogma cristológico.
De Pápias, possuímos apenas alguns fragmentos, um dos quais se tornou muito célebre pelas informações que fornece acerca da composição dos Evangelhos.
A Epístola a Diogneto distingue-se dos demais escritos apostólicos pela pureza clássica de seu estilo. Nela se encontra uma admirável descrição da vida inteiramente celeste dos cristãos.
Os senhores Hippolyte HEMMER e Paul LEJAY publicaram, em sua coleção Textes et documents pour l’étude historique du christianisme, o texto e a tradução da Doutrina dos Apóstolos, da Epístola de Barnabé, da Epístola de São Clemente e do Pastor de Hermas.
III
A maior parte dos documentos que acabamos de enumerar foi redigida sob a forma de cartas. A literatura cristã do século II, porém, enriqueceu-se com obras didáticas de caráter ao mesmo tempo mais científico, mais literário e mais claramente apologético.
As apologias cristãs do século II foram, como os escritos dos Padres Apostólicos, compostas em grego, com exceção do Octavius, de Minúcio Félix.
Elas podem ser encontradas no Corpus apologetarum, 9 volumes in-8º, Jena, 1847.
Os principais apologistas dessa época são São Justino, Taciano, Atenágoras, Teófilo de Antioquia, Minúcio Félix, Hérmias, Melitão, Apolinário e Milcíades.
As obras dos dois últimos perderam-se, e das obras de Melitão restam apenas alguns fragmentos.
A tradução das Apologias de São Justino, por M. PAUTIGNY, e de seu Diálogo com Trifão, por M. ARCHAMBAULT, foi publicada na coleção HEMMER-LEJAY.
IV
Os documentos literários dos quais acabamos de falar devem ser verificados e completados pelos documentos arqueológicos.
Estes podem ser encontrados nas seguintes coleções:
J.-B. DE ROSSI, Inscriptiones christianæ urbis Romæ, 2 volumes, Roma, 1857-1887;
MARUCCHI, Épigraphie chrétienne, traité élémentaire, 1 volume in-8º, Milão, 1911;
LE BLANT, Inscriptions chrétiennes de la Gaule, 3 volumes, Paris, 1856-1892;
HÜBNER, Inscriptiones Hispaniæ christianæ, Berlim, 1871-1900;
Inscriptiones Britanniæ christianæ, Berlim e Londres, 1876;
Corpus inscriptionum latinarum, publicado pela Academia de Berlim;
BÖCKH, Corpus inscriptionum græcarum, 4 volumes, Berlim, 1829-1877;
J.-B. DE ROSSI, Roma sotterranea, 3 volumes, Roma, 1864-1877;
Bollettino di archeologia cristiana, Roma, 1864 e anos seguintes;
M. BESNIER, Les Catacombes de Rome, 1 volume in-12º, Paris, 1909;
MARUCCHI, Éléments d’archéologie chrétienne, 3 volumes, Paris, 1900-1903;
Dom LECLERCQ, Manuel d’archéologie chrétienne, 2 volumes, Paris, 1902;
Dom CABROL, Dictionnaire d’archéologie chrétienne et de liturgie, Paris, 1902 e anos seguintes.
V
Os principais elementos da história das perseguições durante os três primeiros séculos encontram-se nos Atos dos Mártires.
No final do século XVII, o beneditino Dom RUINART reuniu, sob o título Acta primorum martyrum sincera, Paris, 1689, aqueles Atos que lhe pareceram revestidos das características da autenticidade.
Posteriormente, a crítica eliminou dessa coleção certo número de narrativas que lhe pareceram lendárias.
O padre VAN DEN GHEYN apresentou, no verbete “Acta martyrum”, no Dictionnaire de théologie de VACANT, a lista dos atos dos mártires dos primeiros séculos que parecem mais autênticos.
Esses atos pertencem a duas categorias.
Os primeiros são relatos de martírios redigidos por notários públicos. Os Acta proconsularia de São Cipriano constituem o tipo mais perfeito dessa categoria.
Os outros são Paixões devidas à pena de redatores cristãos e escritas, quer a partir de documentos autênticos provenientes dos arquivos judiciais pagãos, quer a partir de testemunhos oculares.
A essa segunda categoria pertencem os Atos de Santo Inácio, de São Policarpo e dos mártires de Lião.
A tradução dos atos autênticos dos mártires dos três primeiros séculos, bem como de certo número de documentos interpolados ou de redação posterior, foi publicada por Dom LECLERCQ:
Les Martyrs, t. I, Les Temps néroniens et le IIe siècle, 3ª edição, Paris, 1906;
t. II, Le IIIe siècle, Dioclétien, Paris, 1903.
O livro de EUSÉBIO, De martyribus Palæstinæ; o de LACTÂNCIO, De mortibus persecutorum; e a coleção das inscrições do papa São DÂMASO constituem fontes complementares indispensáveis.
Os documentos relativos aos santos em geral encontram-se nos Acta Sanctorum dos Bolandistas.
Os Analecta Bollandiana fornecem informações, à medida que aparecem, sobre todos os trabalhos publicados no domínio da hagiologia.
Para os pormenores bibliográficos, ver os dois repertórios recentes dos Bolandistas:
Bibliotheca hagiographica græca, Bruxelas, 1895;
Bibliotheca hagiographica latina, Bruxelas, 1898.
VI
A história das heresias e do desenvolvimento do dogma possui suas fontes nos escritos dos próprios hereges e dos Padres que os combateram.
A indicação desses escritos será encontrada no decorrer desta história.
Um estudo geral será facilitado pelos três Enchiridia publicados pela editora Herder, de Friburgo em Brisgóvia:
DENZINGER-BANNWART, Enchiridion symbolorum;
ROUËT DE JOURNEL, Enchiridion patristicum;
C. KIRSCH, Enchiridion fontium historiæ ecclesiasticæ antiquæ.
As Tabulæ fontium traditionis christianæ, do padre CREUSEN, S.J., Friburgo, Herder, 1911, e os Synchronismes de la théologie catholique, do abade René AIGRAIN, Paris, Bloud, 1912, serão também excelentes instrumentos de trabalho.
Os Synchronismes do abade Aigrain não contêm somente a série dos Padres, dos teólogos e de suas principais obras, mas também a série dos santos, dos papas, dos principais acontecimentos da história da Igreja e da história profana.
VII
O Liber pontificalis fornece poucas informações precisas sobre os três primeiros séculos.
A destruição dos livros e dos arquivos da Igreja de Roma sob Diocleciano privou-nos da quase totalidade dos documentos referentes à história dos papas anteriores.
Os Regesta pontificum romanorum padecem da mesma lacuna.
As Patrologias latina e grega de MIGNE, de importância capital para a história das épocas posteriores, possuem menor interesse para a época que constitui o objeto do presente volume.
(M. F. CAVALLERA, professor no Instituto Católico de Toulouse, acaba de prestar um assinalado serviço aos estudiosos cujas pesquisas os levam a consultar a Patrologia grega, publicando um volume de índices dessa Patrologia: Paris, Garnier Frères, 1 volume in-4º, 1912.)
Diremos o mesmo da grande coleção iniciada em 1903 pelos senhores CHABOT, GUIDI e HYVERNAT, o Corpus scriptorum christianorum orientalium, do qual já apareceram 72 volumes ou fascículos, e da Patrologia orientalis, da qual Mons. GRAFFIN e M. NAU já nos ofereceram 9 volumes.
VIII
Para o estudo e a utilização das fontes da história eclesiástica, devem ser consultados:
TILLEMONT, Mémoires pour servir à l’histoire ecclésiastique des six premiers siècles, 16 volumes in-4º;
padre DE SMEDT, S.J., Introductio generalis ad historiam ecclesiasticam critice tractandam, Gand, 1876;
e Principes de la critique historique, Paris, 1883.
II — OBRAS
I
A Histoire ecclésiastique de EUSÉBIO é menos uma história propriamente dita — isto é, uma narrativa completa, coordenada e justamente proporcionada — do que uma coleção de materiais.
Esses materiais, entretanto, extraídos de obras perdidas e de documentos oficiais tomados literalmente dos arquivos do Estado, possuem valor inestimável.
Ainda que Eusébio não seja propriamente um historiador, merece o título de Pai da História Eclesiástica, que lhe foi atribuído.
A Histoire ecclésiastique de Eusébio, com texto grego e tradução francesa de E. GRAPIN, foi publicada em três volumes, Paris, Picard, 1905, 1911 e 1914.
II
Censurava-se na eruditíssima Histoire de l’Église, escrita pelo cardeal HERGENRÖTHER, uma divisão demasiadamente clássica, que fragmentava o interesse da obra.
Para cada época, ela descrevia, em capítulos distintos, a história externa, as heresias, os progressos do dogma, o culto e assim por diante.
Mons. KIRSCH, ao publicar uma nova edição da obra do eminente cardeal, não se limitou a eliminar as questões envelhecidas e a enriquecer as demais com todas as descobertas da erudição contemporânea.
Na medida do possível, reformulou o plano do autor e tornou a leitura da obra mais agradável e, ao mesmo tempo, mais instrutiva.
O primeiro volume dessa história, abrangendo os três primeiros séculos e o primeiro quarto do século IV, foi publicado sob o seguinte título:
HERGENRÖTHER’S, Handbuch der allgemeinen Kirchengeschichte. Vierte Auflage, neu bearbeitet von Dr. J. P. Kirsch. Erster Band: Die Kirche in der antiken Kulturwelt, Friburgo em Brisgóvia, 1902.
Uma tradução italiana foi publicada cinco anos mais tarde com o seguinte título:
CARD. HERGENRÖTHER, Storia universale della Chiesa, rifusa da Monsignor Kirsch, tradução italiana do padre Enrico ROSA, S.J., volume I, Florença, 1907.
Entre as outras obras que tratam da história da Igreja dos primeiros séculos com a mesma amplitude, devem ser citadas:
– o primeiro volume da Histoire des conciles, de HEFELE, traduzido, corrigido e enriquecido com abundantes notas por Dom LECLERCQ, Paris, 1907;
–o primeiro volume da Histoire ancienne de l’Église, de Mons. DUCHESNE, a consultar com as devidas reservas;
–e os quatro primeiros volumes de L’Avenir du christianisme, primeira parte, Le Passé chrétien, de Albert DUFOURCQ, Paris, Bloud, 1910.
Entre os manuais de história eclesiástica, poderão ser estudados com proveito:
KRAUS, Histoire de l’Église, 3 volumes, Paris, Bloud;
MARION, Histoire de l’Église, 3 volumes, Paris, Roger;
FUNK, Histoire de l’Église, 2 volumes, Paris, Armand Colin;
ALBERS, Manuel d’histoire ecclésiastique, 2 volumes, Paris, Gabalda.
III
No que concerne mais especialmente ao período apostólico, o Manuel biblique, de M. BRASSAC, e a Histoire des livres du Nouveau Testament, de M. JACQUIER, resumem com exatidão os resultados mais recentes da crítica escriturística.
L’Église naissante et le catholicisme, de Mons. BATIFFOL, apresenta, com riquíssima erudição, o quadro da constituição da Igreja primitiva.
As obras de J. LEBRETON sobre Les Origines du dogme de la Trinité e do padre F. PRAT sobre La Théologie de saint Paul expõem de maneira aprofundada a fé da Igreja em suas primeiras origens.
Os estudos do abade FOUARD sobre São Pedro, São Paulo e São João, assim como o de Mons. LE CAMUS sobre L’Œuvre des apôtres, 3 volumes, Paris, 1905, narram com maior riqueza de pormenores os acontecimentos históricos dessa época.
Apesar de sua antiguidade, o livro de DÖLLINGER, Le Christianisme et l’Église à l’époque de leur fondation, tradução de Bayle, Paris, 1863, ainda pode ser consultado com proveito.
As relações da Igreja nascente com o mundo judaico e com o mundo pagão encontram-se expostas mais particularmente nas seguintes obras:
BEURLIER, Le Monde juif au temps de Jésus-Christ et des apôtres, Paris, 1900;
DÖLLINGER, Paganisme et judaïsme, tradução francesa, Paris, 1858-1859.
Uma comparação mais ampla do cristianismo com todas as outras religiões pode ser encontrada em:
Christus, Manuel d’histoire des religions, 1 volume, Paris, Beauchesne, 1911;
e Où en est l’histoire des religions, 2 volumes, Paris, Letouzey, 1912.
Essas duas obras contêm abundante bibliografia.
O Dictionnaire de la Bible, de VIGOUROUX, e o Dictionnaire des antiquités grecques et romaines, de DAREMBERG e SAGLIO, fornecerão, quando necessário, os pormenores complementares.
Também poderão ser consultados com proveito:
BOISSIER, La Religion romaine d’Auguste aux Antonins, Paris, 1874;
BEURLIER, Essai sur le culte rendu aux empereurs romains, Paris, 1891;
TOUTAIN, Les Cultes païens dans l’Empire romain, Paris, 1907;
CUMONT, Les Religions orientales dans le paganisme romain, Paris, 1899;
LAGRANGE, Étude sur les religions sémitiques, Paris, 1905, e Le Messianisme chez les Juifs, Paris, 1909;
ALLO, L’Évangile en face du syncrétisme païen, 1 volume, Paris, 1910;
BATIFFOL, Orpheus et l’Évangile, Paris, 1910.
IV
Sobre o primeiro movimento de expansão da Igreja, os trabalhos mais importantes são os seguintes:
HARNACK, Die Mission und Ausbreitung des Christentums in den ersten drei Jahrhunderten, Leipzig, 1902, resumido por RIVIÈRE em La Propagation du christianisme dans les trois premiers siècles, Paris, 1907;
BATIFFOL, “L’Extension géographique de l’Église”, em Revue biblique, 1895, p. 137 e seguintes;
DUCHESNE, Fastes épiscopaux de l’ancienne Gaule, 2 volumes, Paris, 1894-1900;
DUCHESNE, “Les Anciens évêchés de la Grèce”, em Mélanges d’archéologie et d’histoire, tomo XV.
No que concerne à Igreja Oriental, ver:
LE QUIEN, Oriens christianus, 3 volumes in-fólio, Paris, 1740.
Sobre as origens das Igrejas cristãs em geral, será proveitosa a leitura de:
MAMACHI, O.P., Origines et antiquitates christianæ, 5 volumes in-4º, Roma, 1749-1755.
Sobre as origens das Igrejas da Gália:
ALBANÈS e Ulysse CHEVALIER, Gallia christiana novissima.
V
Sobre as perseguições, a obra fundamental é a de Paul ALLARD, Histoire des persécutions, 5 volumes in-8º, Paris, 1892 e anos seguintes.
Do mesmo autor, devem ser lidos:
Le Christianisme et l’Empire romain, 4ª edição, Paris, 1898;
Dix leçons sur le martyre, 2ª edição, Paris, 1907.
Também devem ser consultados:
LE BLANT, Les Persécuteurs et les martyrs aux premiers siècles de notre ère, Paris, 1893;
C. CALLEWAERT, “La Base juridique des persécutions”, com bibliografia muito completa, em Revue d’histoire ecclésiastique, janeiro de 1911.
VI
As origens das instituições litúrgicas foram objeto de importantes trabalhos:
Dom GUÉRANGER, Les Institutions liturgiques, 2 volumes in-8º, Paris, 1840-1842;
Dom CABROL, Origines liturgiques, Paris, 1906;
Dom CABROL, Le Livre de la prière antique, Paris, 1906;
DUCHESNE, Les Origines du culte chrétien, Paris, 1909;
BATIFFOL, Histoire du bréviaire romain, 3ª edição inteiramente revista, Paris, 1911;
DELEHAYE, S.J., Les Origines du culte des martyrs, 1 volume in-8º, Bruxelas, 1912;
ROUAULT DE FLEURY, La Messe, études archéologiques, 8 volumes in-4º, Paris, 1883-1889;
ROUAULT DE FLEURY, Les Saints de la messe, 10 volumes in-4º, Paris, 1893-1900;
Dom CAGIN, Eucharistia, canon primitif de la messe, 1 volume in-4º, Paris, 1912;
MARTIGNY, Dictionnaire des antiquités chrétiennes;
Dom CABROL, Dictionnaire d’archéologie chrétienne et de liturgie.
VII
A vida e as instituições cristãs foram estudadas nas seguintes obras:
THOMASSIN, Ancienne et nouvelle discipline;
padre DE SMEDT, “L’Organisation des Églises chrétiennes jusqu’au milieu du IIIe siècle”, em Revue des questions historiques, outubro de 1888;
SALEILLES, L’Organisation juridique des premières communautés chrétiennes, Paris, 1912;
H. DE GENOUILHAC, L’Église chrétienne au temps de saint Ignace, Paris, 1907;
Dom HESSE, Les Moines d’Orient, Paris, 1900;
LADEUZE, Le Cénobitisme pachômien, Louvain, 1898;
F. DE CHAMPAGNY, La Charité chrétienne dans les premiers siècles de l’Église, 2ª edição, Paris, 1856;
Léon LALLEMAND, Histoire de la charité, tomo II, Paris, 1903, in-8º.
VIII
O desenvolvimento do dogma nos primeiros séculos foi objeto de numerosos trabalhos, entre os quais devem ser citados:
TIXERONT, Histoire des dogmes: la Théologie anténicéenne, Paris, 1905;
padre POURRAT, La Théologie sacramentaire, Paris, 1907;
BATIFFOL, Études d’histoire et de théologie positive, 2 volumes, Paris, 1902-1910;
SCHWANE, Histoire des dogmes, tradução de Degert, tomo I, Paris, 1903;
GINOULHAC, Histoire des dogmes chrétiens pendant les trois premiers siècles;
Th. DE RÉGNON, Études de théologie positive sur la Sainte Trinité, 4 volumes in-8º, Paris, 1898.
IX
A literatura eclesiástica deu origem, nos últimos tempos, sobretudo na Alemanha, a trabalhos consideráveis.
A obra do professor protestante HARNACK, Geschichte der altchristlichen Literatur bis Eusebius, 2 volumes in-8º, Leipzig, 1893-1897, e a do professor católico BARDENHEWER, Geschichte der altkirchlichen Literatur, 6 volumes, são trabalhos de imensa erudição.
Em proporções mais modestas, BARDENHEWER publicou uma Patrologia em três volumes, traduzida por GODET e VERSCHAFFEL sob o título Les Pères de l’Église, Paris, 1905.
M. TIXERONT, S.S., publicou, em 1917, um Précis de Patrologie, em 1 volume in-12º; e M. POURRAT, S.S., publicou, em 1918, uma história da Spiritualité chrétienne, des origines au Moyen Âge, em 1 volume in-12º.
A França produziu monografias notáveis em várias coleções ainda em curso de publicação.
A Bibliothèque de théologie historique, publicada pela editora Beauchesne, lançou, para o período que constitui o objeto deste volume:
La Théologie de Tertullien, por A. D’ALÈS;
e La Théologie de saint Hippolyte, pelo mesmo autor.
A editora Bloud publicou, na coleção La Pensée chrétienne:
Saint Justin, por Jean RIVIÈRE;
Saint Irénée, por Albert DUFOURCQ;
Origène, por Ferdinand PRAT.
A mesma editora inaugurou a coleção Les Grands Théologiens, edição ao preço de 0,60 franco, com o Saint Justin, de A. BÉRY.
A editora Lecoffre-Gabalda publicou, em sua Bibliothèque de l’enseignement de l’histoire ecclésiastique:
L’Ancienne littérature grecque, de P. BATIFFOL;
e L’Ancienne littérature syriaque, de Rubens DUVAL.
X
As principais fontes da história da paz constantiniana encontram-se na Vida de Constantino, de EUSÉBIO DE CESAREIA.
Sem dúvida, o autor da História Eclesiástica apresenta-se, nessa última obra, mais como panegirista do que como historiador; permanece, porém, fiel ao seu costume de reproduzir os documentos, e nada autoriza a supor que os tenha alterado.
TILLEMONT, em sua Histoire des empereurs e em suas Mémoires, completa felizmente, por meio de testemunhos contemporâneos, os dados fornecidos por Eusébio.
É conhecido o proveito que o duque de Broglie extraiu desses trabalhos em sua célebre obra:
L’Église et l’Empire romain au IVe siècle, 6 volumes in-8º, Paris, 1860.
XI
Um Dictionnaire d’histoire et de géographie ecclésiastiques encontra-se em curso de publicação pela editora Letouzey, sob a direção de Mons. BAUDRILLART.
Muitos estudos referentes aos primeiros séculos da Igreja podem ser encontrados nos seguintes periódicos:
Revue des questions historiques, dirigida por Paul ALLARD e Jean GUIRAUD;
Revue d’histoire ecclésiastique de Louvain, dirigida por Mons. LADEUZE e M. CAUCHIE;
Études, fundada por padres da Companhia de Jesus;
Bulletin de littérature ecclésiastique, publicado pelo Instituto Católico de Toulouse;
Université catholique, publicada pelos professores das Faculdades Católicas de Lião;
Bulletin d’ancienne littérature et d’archéologie chrétiennes;
Recherches de science religieuse;
La Civiltà Cattolica;
Stimmen aus Maria-Laach.
XII
“Não existe”, diz M. Vacandard, “um atlas de história eclesiástica absolutamente completo, e dificilmente poderia existir. Um geógrafo que pretendesse colocar diante dos olhos dos leitores a situação particular da Igreja em cada momento de sua história produziria uma obra mais volumosa e incômoda do que útil.”
Pode-se, contudo, mencionar o Atlas pour servir à l’histoire de l’Église de Rohrbacher, de A.-H. DUFOUR, sob a direção do abade Rohrbacher, contendo 24 mapas coloridos, Paris, Gaume, 1887. Esse atlas, porém, já se encontra envelhecido.
Em 1910, o doutor Karl HEUSI e M. Hermann MULERT publicaram, em doze pranchas e com sessenta e seis mapas, um Atlas zur Kirchengeschichte de caráter verdadeiramente científico.
Sete mapas particulares são consagrados à história da Igreja antiga.
Também poderão ser consultados com proveito:
CHEVIN, Dictionnaire latin-français des noms propres de lieux au point de vue ecclésiastique et monastique, 1 volume in-8º, Paris, 1897;
M. BESNIER, Lexique de géographie ancienne, 2 volumes in-12º, Paris, Klincksieck, 1914.
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Primeira Parte - A primeira expansão
No dia seguinte à morte do Salvador, doze pescadores, timidamente refugiados em uma sala alta de Jerusalém, constituíam praticamente toda a Igreja.
Menos de um século mais tarde, o cristianismo encontrava-se solidamente estabelecido não somente em Jerusalém, mas também em Antioquia, Roma, Atenas, Alexandria, nas principais cidades do Oriente e do Ocidente civilizados e entre grande número de povos bárbaros.
Narrar a marcha dessa maravilhosa expansão da Igreja no mundo antigo é o principal objeto desta primeira parte.
Aquilo que chamamos propriamente de mundo antigo compreendia, na realidade, no tempo de Jesus Cristo e dos Apóstolos, três mundos diferentes.
O mundo judaico, intimamente misturado às outras nações por suas relações comerciais e obstinadamente separado delas por suas crenças, tinha Jerusalém como centro.
O mundo pagão ocidental, unificado pela civilização greco-romana, tinha Roma e Atenas como capitais: em Roma reinava a política; em Atenas resplandecia o culto da arte.
O mundo pagão oriental, perdido em suas especulações metafísicas e em seus devaneios religiosos, agrupava-se em torno de Alexandria.
Fora desses centros de pensamento e de vida, Antioquia, imensa cidade da costa síria, era como o ponto de encontro de todas as antigas civilizações.
Tais são as cidades nas quais a doutrina do carpinteiro da Galileia, pregada por doze pescadores ignorantes, penetrará para suplantar os antigos cultos e criar um mundo novo.
Quando esses centros tiverem sido conquistados, quando o relâmpago partido da Palestina tiver iluminado esses cumes intelectuais, o cristianismo, transbordando as fronteiras do mundo civilizado, penetrará nas terras bárbaras que a grande Roma mal conhece e que mal conhecem o mundo romano.
A tomada de posse do mundo antigo pela religião de Cristo será, a partir de então, um fato consumado.
Antes, porém, de narrar essa admirável propagação do Evangelho, é útil recordar, em algumas páginas, a história da fundação da Igreja por Jesus Cristo.
Capítulo Primeiro - Jesus Cristo e a Igreja
I
No décimo quinto ano do reinado de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos governador da Judeia, Herodes tetrarca da Galileia, sob o pontificado de Anás e Caifás, enquanto João, filho de Zacarias, pregava o batismo de penitência às margens do Jordão, aconteceu que Jesus de Nazaré, tendo sido batizado por João, enquanto orava, viu o céu abrir-se, e o Espírito Santo desceu sobre Ele sob uma forma corporal, como uma pomba; e uma voz fez-se ouvir do céu:
"Tu és meu Filho bem-amado; em ti pus as minhas complacências".
É assim que o evangelista São Lucas narra a primeira manifestação pública daquele que seus discípulos em breve aclamariam como seu Senhor e seu Deus, e que a Igreja reconheceria como seu Chefe.
Jesus nascera cerca de trinta anos antes, da Virgem Maria, em um pobre estábulo de Belém, no reino de Judá, conforme haviam anunciado os antigos profetas.
Sua vida permanecera, até então, oculta aos olhos do mundo; mas havia finalmente chegado a hora de Ele se revelar.
Jesus teria nascido, provavelmente, no ano 749 da fundação de Roma. Sabe-se, com efeito, que Herodes morreu no ano 750 e que, segundo aquilo que o Evangelho dá a entender, Jesus havia nascido pouco tempo antes. Dionísio, o Pequeno, ao fixar o início de nossa era no ano 754 de Roma, cometeu um erro há muito reconhecido. (Ver FOUARD, Vie de Jésus-Christ, Paris, 1909, p. 49 e seguintes). Cálculos astronômicos realizados para determinar o ano da morte de Jesus Cristo conduzem à mesma cronologia. Os trabalhos de M. de la Porte e do professor Pio Emmanuelli, astrônomo do Observatório do Vaticano, parecem demonstrar que o Salvador foi morto na sexta-feira, 7 de abril do ano 783 de Roma, correspondente ao ano 30 de nossa era. Naquele ano, o dia 14 de nisã estendia-se das 18 horas de 6 de abril às 18 horas de 7 de abril, e o dia 7 de abril do ano 783 de Roma coincidia com uma sexta-feira. Nenhum outro ano, entre os anos 28 e 34 de nossa era, apresentava a mesma coincidência. (Ver uma bibliografia sobre a questão em Revue d’histoire ecclésiastique, 15 de abril de 1913, p. 408-409).
Desde o dia de seu batismo, começa seu ministério público.
Durante três anos, Jesus percorre a Galileia e a Judeia, cumulando-as de seus benefícios. Anuncia elevados mistérios, mas os confirma por grandes milagres; ordena grandes virtudes, mas concede ao mesmo tempo grandes luzes, grandes exemplos e grandes graças (BOSSUET, Discours sur l’histoire universelle, segunda parte, cap. XIX, ed. Lachat, t. XXIV, p. 448).
A doutrina que Ele prega é, ao mesmo tempo, muito antiga e muito nova.
Todo escriba instruído acerca do Reino de Deus — diz Ele — é semelhante a um pai de família que tira de seu tesouro coisas novas e antigas.(Mt 13,52.)
Jesus reúne, como em um feixe, as verdades religiosas e os preceitos divinos espalhados pelo mundo, desde as origens, pela religião patriarcal e pela religião mosaica, e os completa mediante a revelação de mistérios mais profundos e a pregação de virtudes mais perfeitas.
A crença em um Deus único, a espera de um Messias libertador e a esperança de uma restauração de Israel haviam sido os principais fundamentos da fé dos judeus.
Jesus ensina-lhes que o Deus que adoram é, ao mesmo tempo, Pai, Filho e Espírito Santo (Mt 28,19); que o Messias por eles esperado é verdadeiramente o Filho de Deus (Jo 8,58); e que a restauração na qual depositam sua esperança não é outra coisa senão a redenção dos pecados do mundo (Mt 26,28).
Até então, os judeus haviam sido estimulados à obediência a Deus pela esperança de recompensas terrestres. Jesus lhes revela uma vida futura e, mantendo-os suspensos nessa esperança, ensina-os a desapegar-se das coisas sensíveis.
Não satisfeito em dizer que uma vida eternamente bem-aventurada está reservada aos filhos de Deus, Ele explica em que ela consiste: consiste em estar com Ele na glória de Deus; em contemplar a glória que possui no seio do Pai; em uma palavra, em conhecer o único Deus verdadeiro e Jesus Cristo, por Ele enviado (Jo 17,3; BOSSUET, Discours sur l’histoire universelle, segunda parte, cap. XIX, t. XXIV, p. 450 e 460).
Com recompensas tão novas, são também necessárias novas concepções das virtudes e práticas mais perfeitas e mais purificadas.
Jesus propõe o amor de Deus levado até ao ódio de si mesmo. Propõe o amor ao próximo levado até o ponto de estender a todos os homens essa inclinação benfazeja. Propõe a humildade levada até ao amor dos opróbrios pela glória de Deus (BOSSUET, Discours sur l’histoire universelle, segunda parte, cap. XIX, t. XXIV, p. 460-461).
Assim, tanto na moral quanto no dogma, o antigo ideal é ultrapassado sem medida.
Seria essa toda a mensagem de Jesus Cristo?
De modo algum.
Os ouvintes do Mestre não demoram a compreender que sua obra tem em vista, sobretudo, o futuro.
Desde o segundo ano de seu ministério, pela vocação dos doze Apóstolos e pela escolha de certo número de discípulos, Jesus lançou os fundamentos de uma sociedade da qual Ele é o centro e o inspirador.
À frente dos Doze, colocou Simão, filho de Jonas, a quem deu o nome de Simão Pedro.
O primado de Pedro é tão manifesto que os Evangelhos, embora não conservem uma ordem determinada ao enumerar os Apóstolos, concordam em nomear São Pedro antes de todos os outros, como o primeiro (BOSSUET, Discours sur l’histoire universelle, segunda parte, cap. XIX, t. XXIV, p. 448).
Eis, porém, que, diante da incompreensão das multidões e da má vontade dos fariseus, o Mestre, conformando-se aos costumes do ensino popular no Oriente, modifica a forma habitual de seus discursos.
Em vez da exortação e da instrução diretas, passa a servir-se habitualmente de pequenas narrativas figuradas, parábolas ou fábulas populares, para fazer compreender ou adivinhar seu pensamento.
Grande número dessas parábolas tem por objeto um reino misterioso, chamado algumas vezes de Reino de Deus e, outras vezes, de Reino dos Céus.
Esse reino é comparado, ora a um campo no qual o joio, semeado pelo demônio, cresce ao lado do bom trigo (Mt 13,1-23); ora a um grão de mostarda que se transforma em uma grande árvore (Mt 13,31); ora ao fermento que uma mulher mistura à massa até que toda ela fique levedada (Mt 13,33); ora a uma rede lançada ao mar, que se enche de peixes de toda espécie (Mt 13,47).
Aos olhos dos discípulos, muitas sombras ainda flutuam ao redor da imagem desse reino.
Ele lhes aparece sucessivamente muito distante e muito próximo; fora deste mundo visível e, ao mesmo tempo, presente neste mundo visível transformado.
Isso ocorre porque, no pensamento do Mestre, o reino está próximo enquanto é concedido nesta vida, mas está distante enquanto é consumado e aperfeiçoado na outra.
Aquilo que aparece claramente, em todo caso, é que esse reino futuro terá a forma de uma sociedade organizada em torno de Cristo Rei.
A mãe dos filhos de Zebedeu, compreendendo-o de maneira terrena, pede nesse reino lugares de honra para seus filhos.
A maior parte das incertezas desaparece durante os quarenta dias de conversações que Cristo ressuscitado concede a seus discípulos.
Torna-se então evidente que a palavra reino, tão frequentemente empregada pelo Mestre durante sua vida terrestre, ainda que tenha significado mais de uma vez o reinado de Deus pela graça e, com maior frequência, a revelação suprema dos últimos dias, teve habitualmente por objeto uma sociedade ou Igreja terrestre e militante.
A missão dessa Igreja será realizar em cada um de nós o reinado individual de Deus e, por isso mesmo, preparar o advento de uma Igreja triunfante no céu.
Essa Igreja, aliás, já está presente, organizada e viva, diante dos olhos de todos.
Como sociedade perfeita, ela já recebeu do Mestre:
- sua finalidade própria, a salvação do mundo;
- sua doutrina essencial, o ensinamento evangélico;
- sua santa liturgia, da qual a Eucaristia é o centro;
- sua hierarquia divina, cujos graus são assinalados pelos sacramentos do Batismo e da Ordem;
- e seu chefe supremo, designado por uma escolha especial do Salvador.
Simão, filho de Jonas — disse Jesus —, tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja […] e eu te darei as chaves do Reino dos Céus; e tudo o que desligares sobre a terra será desligado nos céus. (Mt 16,18-19.)
E também:
Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como o trigo. Mas eu roguei por ti, para que tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, confirma teus irmãos. (Lc 22,31-32.)
Conhece-se o belo e sólido comentário que Bossuet faz dessas palavras em seu Sermão sobre a unidade da Igreja:
As grandes palavras, nas quais vistes tão claramente o primado de Pedro, estabeleceram também os bispos […] O mesmo que disse a São Pedro: “Tudo o que ligares será ligado” etc., disse a mesma coisa a todos os Apóstolos […] Mas aquilo que vem depois não destrói o começo, e o primeiro não perde seu lugar […] As promessas de Jesus Cristo, assim como seus dons, são irrevogáveis […] O poder concedido a muitos traz consigo uma restrição pelo próprio fato de ser repartido; ao passo que o poder concedido a um só, sobre todos e sem exceção, comporta a plenitude […] para que aprendamos, segundo a doutrina de um santo bispo da Igreja galicana, que a autoridade eclesiástica, primeiramente estabelecida na pessoa de um só, somente se difundiu sob a condição de ser sempre reconduzida ao princípio de sua unidade. (BOSSUET, Œuvres complètes, ed. Lachat, t. XI, p. 599-601.)
Jesus sobe ao céu.
Nenhum elemento essencial parece faltar à sociedade divinamente organizada que Ele deixa sobre a terra.
E, contudo, a atitude de seus discípulos permanece ainda tímida.
Entregues à própria fraqueza e tremendo diante da polícia judaica, eles se ocupam apenas em rezar em comum e guardar piedosamente em suas almas, juntamente com a lembrança das conversações do Mestre, a memória do grande milagre da Ressurreição, realizado para sustentar-lhes a fé.
Esperam a vinda do Consolador prometido, pois Jesus lhes dissera ao deixá-los:
Se eu não partir, o Consolador não virá a vós; mas, se eu for, eu o enviarei. (Jo 16,7.)
II
Tal é a atitude dos Apóstolos até o dia de Pentecostes.
Naquele dia, narra o livro dos Atos, enquanto todos estavam reunidos no mesmo lugar, ouviu-se subitamente um ruído semelhante ao de um vento impetuoso, que encheu toda a casa na qual se encontravam.
Apareceram-lhes línguas semelhantes a línguas de fogo, separadas umas das outras, e pousaram sobre cada um deles.
Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em diversas línguas, conforme o Espírito lhes concedia que se exprimissem.
Havia então em Jerusalém judeus vindos de todas as nações que existem debaixo do céu.
Ao ruído que acabava de se produzir, a multidão acorreu e ficou confusa, porque cada um ouvia os Apóstolos falar em sua própria língua.
Diziam uns aos outros:
Estes homens que falam não são todos galileus? Como, então, cada um de nós os ouve na língua do país em que nasceu? Partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia, da Capadócia, do Ponto, da Ásia, da Frígia, da Panfília, do Egito, das regiões da Líbia próximas de Cirene, estrangeiros de Roma, judeus e prosélitos, cretenses e árabes: todos nós os ouvimos celebrar em nossas línguas as grandes obras de Deus. (At 2,1-12.)
Essa longa enumeração de povos não deve surpreender-nos.
O historiador Flávio Josefo afirma que não existia no mundo uma nação na qual os judeus não tivessem estabelecido residência (JOSEFO, De bello judaico, II, 16,4).
Um poeta judeu, por volta do ano 140 antes de nossa era, pôde escrever a respeito de sua raça este verso enfático, mas não mentiroso:
A terra e o mar estão inteiramente cheios de ti.
(Oracula Sibyllina, III, 271, ed. GEFFCKEN, p. 62. Ver também BATIFFOL, L’Église naissante, 5ª ed., 1 volume in-12º, p. 2-8; LAGRANGE, Le Messianisme chez les Juifs, 1 volume in-8º, Paris, 1909, p. 273-284.)
Fílon assegura que, em seu tempo, havia judeus em cada cidade importante do Império e até mesmo nas ilhas da Europa e da Ásia.
Dispersos por seus conquistadores ou atraídos às cidades comerciais por seu espírito mercantil, os filhos de Israel haviam penetrado em quase toda parte.
Essa dispersão parece ter sido providencial.
No meio dos povos idólatras, os judeus haviam conservado firmemente os dois dogmas essenciais de sua religião: a crença em um Deus único e a esperança de um Messias futuro.
Desse modo, o judaísmo preparava o mundo para receber a doutrina de Jesus Cristo.
Embora dispersos pelo mundo, os israelitas gostavam de vir revigorar sua fé religiosa no meio das festas tradicionais de sua nação.
Não é de admirar que a festa de Pentecostes, ou festa do encerramento das colheitas, tivesse atraído grande número deles a Jerusalém.
Esses homens de línguas estrangeiras admiram-se, portanto, com o prodígio.
Os espíritos crentes glorificam humildemente o Deus de seus pais. Outros, céticos e zombeteiros, riem:
Ora! É o vinho doce que agita esses homens.
Mas o chefe dos Doze levanta-se.
Esse chefe é Simão Pedro, aquele a quem Jesus confiara pouco antes o cuidado de apascentar os cordeiros e as ovelhas.
Homens da Judeia — exclama —, e vós todos, estrangeiros vindos a Jerusalém, ouvi atentamente aquilo que vos vou dizer: não, estes homens não estão embriagados, como supondes. Aquilo que vedes é apenas a realização da profecia de Joel: “Derramarei do meu Espírito sobre toda carne, e vossos filhos e vossas filhas profetizarão.” (At 2,15-17.)
E acrescenta:
Filhos de Israel, escutai estas palavras: Jesus de Nazaré, esse homem cuja missão Deus confirmou diante de vossos próprios olhos, concedendo-lhe realizar entre vós obras poderosas, prodigiosas e cheias de significado — vós o sabeis tão bem quanto eu —, foi-vos entregue por um desígnio determinado de Deus e por um decreto de sua presciência. E vós, prendendo-o ao patíbulo pelas mãos daqueles que não reconheciam a Lei, vós o matastes! Mas aquele que matastes, Deus o ressuscitou, rompendo os laços da morte, pelos quais Ele não podia ser retido. (At 2,22-24.)
Assim, no próprio momento em que a mais autêntica inspiração do Espírito divino ilumina sua alma, o apóstolo Pedro, representante e chefe da Igreja docente, apoia toda a sua pregação em um fato e em uma verdade.
O fato é a ressurreição de Jesus de Nazaré, que, morto diante de todo o povo, saiu triunfante do sepulcro.
A verdade sugerida por esse fato é o direito desse mesmo Jesus a uma permanência imortal, pois Ele não pode ser retido nos laços da morte e já começa a manifestar como continua a viver nas almas de seus fiéis e na autoridade de sua Igreja.
Esse Jesus ressuscitado, esse Cristo — exclama Pedro com entusiasmo crescente —, foi elevado ao céu, à direita de Deus; e, tendo recebido de seu Pai a promessa do Espírito Santo, Ele o derrama, como agora vedes e ouvis. (At 2,32-33.)
Enquanto São Pedro fala desse modo, o Espírito Santo opera no coração de seus ouvintes um prodígio ainda mais maravilhoso do que o dom das línguas concedido aos onze Apóstolos.
Uma graça interior onipotente, aquela da qual Jesus falara ao dizer que ninguém pode vir a Ele se o Pai não o atrair (Jo 6,44), transforma as almas.
Homens, nossos irmãos — exclamam alguns, dirigindo-se a Pedro e aos outros Apóstolos —, que devemos fazer?
Penitência! — responde Pedro.
E acrescenta:
Que cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo.
Pedro indica, desse modo, que a condição para a iniciação na vida cristã e para a salvação é dupla: ao mesmo tempo interior e exterior.
Ela compreende uma disposição da alma e um rito realizado pelo sacerdote em nome de Cristo.
As características essenciais da Igreja Católica não poderiam manifestar-se com maior precisão e clareza no próprio momento em que ela nascia.
Na Theologische Literaturzeitung de 16 de janeiro de 1909, o mais ilustre historiador da Alemanha contemporânea, Adolf Harnack, não hesitou em reconhecer que elementos capitais do catolicismo remontam à idade apostólica e que, por conseguinte, é possível estabelecer, com provas impressionantes, que a concepção católica da Igreja nascente é historicamente verdadeira; em outros termos, que cristianismo, catolicismo e romanismo formam uma perfeita identidade histórica.
É a primeira vez que um protestante formula uma proposição tão oposta às afirmações tradicionais de sua Igreja, e a competência particular daquele que a apresenta merece ser ressaltada com atenção.
As restrições que o autor acrescenta depois à sua afirmação — a saber, que o abismo que separa Jesus dos Apóstolos não teria sido transposto e que a hierarquia dos fatores do catolicismo teria se modificado continuamente — não impedem que se reconheça a importância de sua declaração geral.
(Ver a reprodução quase integral do artigo de Adolf Harnack e seu exame crítico na importante obra de Mons. BATIFFOL, L’Église naissante et le catholicisme, 5ª edição, Paris, 1915, especialmente p. XII-XXVIII e 94-113.)
A Igreja Católica, com efeito, sempre fixou no dia de Pentecostes a data de seu nascimento.
Foi nesse dia que os ritos da Antiga Lei perderam sua vigência. Foi também a partir desse dia que a Lei Nova se tornou obrigatória (HURTER, Theologia dogmatica, tratado III, De Ecclesia, tese XXXVII, n. 281).
À voz de Pedro, três mil pessoas convertem-se e são batizadas.
Desses três mil convertidos, uns levarão a semente evangélica aos diversos países que habitam; outros formarão o núcleo da Igreja de Jerusalém.